As companhias de Jasiek são um cachorro e um homem tido como o bobo da região, sempre ocupado em impedir que a chuva molhe os misteriosos escritos que ele traça num chão de cimento. Ao trio, acaba de juntar-se a menina Mala (Ola Prószynska). Aos 11 anos, ela entrou em conflito com os pais de classe média alta, fugindo de casa depois do envolvimento com pequenos furtos. A única pessoa em que ela confia é Jasiek.
Há razões dentro da história para este afeto entre a menina e o vigia. Ele se torna o centro da delicada negociação que o pai e a mãe movem para recuperar a filha. Não acontece muita coisa, no sentido espetacular que se costuma atribuir à ação dentro de um filme. Ao mesmo tempo, ocorrem deslocamentos muito profundos entre todos estes personagens, envolvidos numa procura de reencontrar sua unidade.
O solitário vigia, anjo protetor da menina e do excêntrico, é ele mesmo um centro de ressonância dessa procura por um lugar no mundo, pelo respeito a uma identidade que nem sempre corresponde às expectativas sociais – elas mesmas, tantas vezes forjadas em rituais de aparência, sem atenção real aos sentimentos e opções das pessoas. Articula-se, nas entrelinhas, este divórcio entre os deserdados do comunismo decadente e os afluentes da nova ordem capitalista na Polônia (representados pelos pais de Mala), ele sempre permanece no fundo. Mais do que uma conclusão, o que a história procura e encontra é tomar o pulso do coração dos homens.
