Uma espécie de versão drag queen de Shakespeare Apaixonado, A Bela do Palco tem como protagonista Ned Kynaston (Billy Crudup), um ator que na Inglaterra do século XVII era um dos melhores intérpretes de papéis femininos. Porém, sua posição é ameaçada quando o Rei Charles II (Rupert Everett) decreta que os papéis femininos devem ser feitos por mulheres.
Nesse ponto, A Bela do Palco é um embate entre a velha escola de atuação de homens fazendo os papéis femininos versus as atrizes interpretando com naturalismo as personagens. Maria (Claire Denis), primeiro é camareira, e depois a maior rival de Ned. Ele, que por mais temperamental e vaidoso, é, acima de tudo, profissional e disciplinado, e atuar como mulher é a sua vida. Tanto que, uma vez destituído de seu papel, não sabe como se portar como homem.
É nessa vertente que A Bela do Palco muda de caminho –ou tenta mudar – e não sabe ao certo o que quer dizer, até chegar no seu final que é, no mínimo, improvável. Ao longo da história é revelado que Ned é homossexual. Isso já daria subtexto o bastante para ser explorado no filme. No entanto, Maria é apaixonada por ele e, inconscientemente, decide converte-lo.
Dirigido por Richard Eyre (Íris), que foi um renomado diretor de teatro, A Bela do Palco está num terreno seguro ao mostrar os bastidores do teatro, são guerras de ego pelas atenções, pelos melhores papéis, pela fama. Porém, o roteiro de Jeffrey Hatcher, baseado em sua peça homônima, não sabe ser conduzido quando se propõe a ser um estudo da sexualidade humana.
A ascensão de Maria representa a decadência física, moral e artística de Ned. E, na maior parte do tempo, o diretor e o roteirista conseguem explorar esse paralelo de forma eficiente. Ela representa um feminismo que se fortalece a cada momento, ao mesmo tempo em que a sociedade vai se reprimindo e se tornando mais homofóbica ainda – e isso fica bem claro quando o Duque de Buckingham (Ben Chaplin) abandona o ex-ator para se casar.
Quando chega na sua última meia hora, A Bela do Palco se torna tão retrógrado quanto a sociedade a que se propõe criticar. A ambigüidade dos personagens e do teatro dão lugar a um realismo fora de hora. É feita uma montagem de “Otelo”, com um casting improvável e métodos de atuação contemporâneos demais, como se todo o elenco (da peça) tivesse feito Actors Studio. Quando chega em seus momentos finais, o filme atesta que a arte teatral é capaz de tudo - até ‘curar’ homossexualismo.
