03/06/2026
Drama

Cidade Baixa

Deco e Naldinho são dois amigos de infância que ganham a vida fazendo fretes a bordo de um pequeno barco. A amizade entra em jogo quando conhecem a prostituta Karina, uma bela moça que acaba seduzindo os dois simultaneamente. O ciúme pode colocar tudo a perder.

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O cineasta baiano Sérgio Machado não esconde uma certa satisfação quando comparam o seu Cidade Baixa ao clássico francês Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois. Mas ele também deixa claro que ao criar um triângulo amoroso em Salvador, ele tinha outros objetivos, diferentes do mestre Truffaut.

“Eu queria fazer um triângulo amoroso diferente do tradicional – sem a morte e a punição”, contou em uma entrevista exclusiva. “Também tinha um desejo de tentar entender esses jovens de 20 anos, de classe baixa. Foi isso que me impulsionou a escrever o filme”, explica.

Para realizar esse desejo de fazer um roteiro sobre esses jovens, Machado contou com a ajuda do cineasta e roteirista cearense Karim Aïnouz (Madame Satã), além de uma extensa pesquisa de campo visitando barzinhos e casas de stip em Salvador. “O roteiro do filme tem muito das histórias que ouvi dessas pessoas da noite. Muitos até aparecem no filme, ficaram meus amigos”, confessa o diretor.

Cidade Baixa é protagonizado por Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga, e conta a história de um amor inusitado entre o trio. Os dois rapazes são amigos de infância e têm um barco, ganham a vida fazendo entregas e conhecem uma stripper numa pequena cidade. Dão carona para ela até Salvador, mas acaba explodindo uma incontrolável paixão entre eles.

Na capital baiana o trio vive idas e vindas amorosas, com a moça ora ficando com um, ora com outro, às vezes com nenhum, e fazendo programas. Machado deixa claro que com seus personagens não queria fazer “um tratado sociológico sobre malandros, sobre prostitutas e sobre a Bahia”. Ele sabe que a história é universal. “O essencial é comum às pessoas”, define.

Desde de Cannes, com algumas exibições fechadas, Machado tem notado que o filme faz muito sucesso com o público jovem. E não foi à toa que ganhou o prêmio concedido por júri popular formado por rapazes e moças da Europa no festival Francês. “Acredito que essa boa recepção se deve porque o filme fala de hormônios típicos dessa fase da vida”, teoriza.

ELENCO E CÂMERA

A primeira coisa que mais chama a atenção em “Cidade Baixa” é o elenco. Os três jovens estão na melhor de sua forma graças a um trabalho feito com a famosa preparadora Fátima Toledo. “Descobri que eu e ela tínhamos uma sintonia muito grande e esperávamos a mesma coisa do filme. Isso ajudou bastante”, explica.

“Eu queria só jovens negros, no início”, explica, “o primeiro a ser escalado foi Lázaro. Os outros dois vieram por causa de coincidências muito boas”. Wagner Moura acabou entrando depois de fazer uma leitura do roteiro e de Ramos ter feito uma ‘verdadeira declaração de amor’ para ele durante uma festa. “O fato de serem amigos ajudou muito com os personagens”, explica o diretor.

A última a entrar foi Alice Braga (Cidade de Deus), sobrinha de Sonia Braga. A moça estava morando fora e fez um teste com o diretor e Fátima e acabou sendo a escolhida. O diretor conta que por ter sido a última a entrar na equipe, Alice recebeu uma espécie de atenção especial de todos. “Ela foi muito bem acolhida. Parecia que todos queriam protegê-la”, explica.

Outra coisa que chama muito a atenção em Cidade Baixa é o posicionamento da câmera. Com assistência do diretor de fotografia Toca Seabra, Machado buscou uma câmera que cola nos seus personagens, que entra dentro da cena. “Queria mostrar que de perto, todos somos muito parecidos. Queria também que o público pudesse perceber o suor, as batidas do coração”, afirma.

E conseguiu. Cidade Baixa é um dos filmes brasileiros mais viscerais dos últimos anos, retratando uma paixão que não faz concessões e que experimenta até as últimas conseqüências aquilo que o amor pode dar.

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