A história toda se gira em torno de uma frase dita pela protagonista. “De quantas vidas você precisa para ser feliz?”. O filme, não traz resposta, mas levanta uma outra questão em suas entrelinhas: “De quantas atrizes você precisa para interpretar o mesmo papel?”. Nesse caso, a resposta é quatro, mas nenhuma muito convincente.
A história começa com Maria (Ingra Liberato, que também é produtora do filme) se casando. Quando o padre faz a pergunta de praxe, ela titubeia antes de dizer o sim. Mas acaba aceitando o marido. Depois dos créditos iniciais, o filme começa a ser contado em ordem cronológica.
Maria nasceu no mesmo dia da fundação de Brasília, 21 de abril de 1960. Filha de migrantes, seu pai trabalhou na construção da capital e sua mãe morreu no parto. A menina (Giulia Dainez Roque) foi criada pelo pai com a ajuda do padrinho (Gésio Amadeu).
Quando o trabalho começa a diminuir na nova cidade, o pai vai embora para o norte e deixa a filha sob os cuidados do padrinho, motorista de um deputado rico. Maria (agora com 10 anos e interpretada por Ingrid Zago) acaba sendo adotada informalmente pelo político que lhe dá as mesmas regalias que ao filho.
É Sthefany Brito quem faz o papel de Maria na adolescência. Ela é muito próxima ao irmão adotivo, por quem acaba sendo estuprada. Depois que ele se envolve com outros problemas e deixa o país, a moça se torna ‘filha única’ e decide curtir a vida.
Agora adulta, os verdadeiros problemas de Maria estão só começando. Um fiasco na vida amorosa e sem uma profissão ou mesmo amigos, a mulher faz amizade com Tiago (Gustavo Melo), que, como ele mesmo se define, é minoria da minoria da minoria. Ou seja, gay, negro e nordestino. Agora, ela acredita que terá uma grande chance na sua vida.
Todo o roteiro do filme tenta traçar um paralelo entra a vida de Maria e de Brasília, mas sem nunca estabelecer uma relação de causa e conseqüência entre as duas. Além de nascerem no mesmo dia, a caminho de seu casamento, por exemplo, a moça cruza com uma manifestação de Diretas Já.
Logo após sua separação, conhece o amigo Tiago numa passeata de caras-pintadas pedindo o impeachment de Collor. E por aí vão os paralelos, que se revelam muito mais esquemáticos do que conseqüências naturais de um roteiro bem estruturado.
Nem a bela arquitetura de Brasília serve para salvar o longa. O elenco é todo mal dirigido, adotando um tom extremamente teatral. Muitas das situações são, no mínimo, risíveis e fora de cabimento. Para um filme que é, supostamente, sério, As Vidas de Maria produz uma série de reações que vão de meros risos a gargalhadas – todas involuntárias.
As Vidas de Maria marca a estréia de Barbieri na direção de ficção. Entre os seus trabalhos estão os documentários Terra de Quilombo – Espaços de Liberdade (02) e A Invenção de Brasília (01), que serviu de pesquisa para o roteiro e a direção de arte deste longa.
