No entanto, uma das surpresas de O Exorcismo de Emily Rose é utilizar todos os artifícios possíveis – encontrados em produções do gênero – para confundir a quem vê. Ao eleger como fundamental o drama judicial, coloca a possessão como pano de fundo de uma perturbante crônica de desespero. Seria Emily louca, ou, como a própria igreja católica atestou, vítima de almas maléficas que se apoderam de seu corpo?
Entre a verdade e a ilusão, o filme conta supostamente uma história baseada em fatos verídicos (ocorridos com a jovem americana Anneliese Michel), na qual uma adolescente morre, aqui a tal Emily Rose, durante uma cerimônia de exorcismo. O padre que o realizou é defendido pelo preceito católico da manifestação do demônio. Por outro lado, existe a justiça americana, que vê na situação um carnaval de absurdos e entende que a jovem poderia muito bem ter sido tratada pela medicina moderna.
Para defender o padre Morre (o excelente Tom Wilkinson), entra em cena a advogada agnóstica Erin Bruner (Laura Linney), que terá de provar o impossível: seis demônios possuíam o corpo da jovem e, portanto, não se trata de um homicídio doloso. Enquanto isso, o promotor Ethan Thomas (Campbell Scott) ironiza a defesa, dando ao cinema pérolas memoráveis de estupidez jurídica, em diálogos que poderiam ter sido cortados antes mesmo da filmagem.
Nesse imbróglio, são vários os elementos que tornam o filme atrativo ao grande público. Em primeiro lugar, inegavelmente, ele brinca com as crenças do espectador, que deve pensar antes de se assustar. Um bom sinal de clareza e competência do roteiro. Outro ponto fundamental é o bom trabalho do elenco. Laura, Wilkinson, Scott e até Jennifer Carpenter (a pobre moça que se contorce, rosna e come insetos) conseguem dar credibilidade aos personagens, apesar da inverossímil história.
Para os fãs do gênero de terror também há a boa notícia de que as cenas de possessão e de visões demoníacas são honestas e assustadoras. A tensão é uma das armas deste filme, apesar do desfecho conveniente e demasiadamente melodramático. Outra notícia interessante é a participação especial da atriz Mary Beth Hurt, para a diversão de cinéfilos dos anos 80.
