Há motivos para esse diferencial. Afinal, o longa foi dirigido por Curtis Hanson (8 Mile – A Rua das Ilusões) , que fez duas excelentes adaptações de um livro muito bom (Los Angeles – Cidade Proibida) e outro excelente (Garotos Incríveis). Aparentemente, não há nada que o diretor não consiga fazer quando se trata de cruzar literatura com cinema. Ele transformou o livro descartável e previsível de Weiner num filme complexo sobre amor, amizade e valores familiares sem nunca transformá-lo em algo pedante ou bobo.
A grande vantagem que o roteiro, assinado por Susannah Grant (Erin Brockovich), tem sobre o livro é nunca duvidar da inteligência da sua platéia, deixando de lado os acontecimentos mais improváveis e desnecessários retratados na obra e centrando-se apenas na relação entre as duas irmãs Maggie e Rose Feller, que são dois opostos. Essa oposição, aliás, tão forçada e esquemática quando descrita por Weiner, ganha diversas nuances no cinema, ficando bem mais próxima da realidade.
Maggie (Cameron Diaz) é linda, preguiçosa e burra. Nunca teve um emprego no qual durasse muito tempo, abandonou os estudos e vive de relacionamentos passageiros. A idade começa a bater mas mesmo assim não pensa em levar uma vida mais regrada. Já Rose (Toni Collette) é uma advogada que sempre socorre a irmã dos porres e encrencas, embora não goste dessa função. Acima do peso e sem muitos amigos, ela espera encontrar um grande amor. Em comum, apenas a fixação das duas por sapatos.
Rose achava que havia encontrado seu grande amor. Até o dia em que flagra a irmã com ele em sua própria cama. Colocada para fora de casa, Maggie não sabe o que fazer com sua vida. Até que se lembra de que tem uma avó que não vê há anos e decide procurá-la. A outra irmã, por sua vez, abandona o emprego e começa a ganhar a vida levando cães para passear, o que a deixa mais feliz, aliás.
A entrada da avó Ella (Shirley MacLane) serve para trazer um novo vigor ao filme. Moradora de um condomínio para a terceira idade na Florida, ela nem esperava mais reencontrar as suas netas. Mas é obrigada a acomodar Maggie, que pouco se relaciona com ela e passa os dias na piscina local - o que quase causa um ataque do coração em massa dos moradores do sexo masculino.
A partir de então, Em Seu Lugar se divide em dois, acompanhando Rose, em Boston, com seu novo trabalho e com a possibilidade de um novo amor; e Maggie e Ella tentando se entender e esclarecer o passado. E quem leva a melhor é tanto Rose quanto sua intérprete, Toni Collette. A transformação da personagem é muito mais orgânica e interessante do que a da irmã. O que irá acontecer com as duas é até previsível. Mas o vigor com que a atriz agarra o seu papel faz com que ela ganhe fácil a platéia. Cameron traz um brilho para o filme, e certamente seria o centro dos acontecimentos, não fosse o fato da outra atriz ser extremamente talentosa.
O que coloca Em Seu Lugar num patamar acima de outras adaptações de chick lit é o fato de Hanson entender perfeitamente com o que está trabalhando. São clichês românticos, pós-feministas, que resultam no final feliz. A diferença, para os outros filmes, é que ele não tenta esconder isso, mas usar essas características em seu favor. E como um bom sapato de grife, é delicado, elegante e satisfaz pessoas de bom gosto.
