Tal como acontece nos quadrinhos do Gatão, publicados semanalmente no jornal carioca O Globo, a filha é a mulher mais constante da vida dele, que se chama Cláudio, aliás. Separado da esposa, Betty (Julia Lemmertz, mulher de Alexandre Borges na vida real), ele vive se envolvendo com novas mulheres, como uma quarentona sensual (Ângela Vieira), uma adolescente (Thais Fersoza) e uma motoqueira que sabe usar os punhos (Cristiana Oliveira).
Curiosamente e contra a própria vontade, o Gatão vive uma crise de ciúme quando sua ex-mulher começa a namorar firme com um certo Aurismar (Antônio Grassi). O namorado tem carrão e uma situação econômica bem acima do ex-marido, um designer que vive num apartamento modesto.
No fundo, o Gatão é um sentimental que não gosta de assumir a própria fragilidade. Vive apegado ao que lhe resta de juventude, mantendo o rabinho de cavalo, enquanto as entradas na testa vão avançando. Insiste na paquera, mesmo que tantas vezes se dê bem mal. E resiste à voz da consciência, representada pela filha descolada, que é quase sempre quem lhe dá toques de que está passando dos limites razoáveis.
Essa fidelidade à tira original vem da participação direta do desenhista Miguel Paiva na produção do filme – e pode ser o detalhe que, em última análise, tire um pouco da energia que poderia ter. É claro que não se espera tanta densidade de um personagem de quadrinhos, mas ficou faltando uma história em que a imaginação voasse mais livremente. Isso nunca acontece. O Gatão até que é um personagem simpático, mas as escolhas traduzidas no filme (fotografia, por exemplo) dão a ele um ar um pouco datado.
Dá para rir um pouco, ainda assim, da fragilidade dessa grande fantasia masculina representada pelo Gatão. Ainda que outra personagem de Miguel Paiva, a Radical Chic, seja tão mais rica e interessante. Mas ela o desenhista garante que tão cedo não pensa em transformar em protagonista de um filme – se é que algum dia o fará.
