03/07/2026

Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos

Marquinhos, ídolo brasileiro do Roma, volta ao Brasil para inaugurar um bar com o ex-jogador Aurélio. No mezanino, ficam os veteranos, que guardam lembranças de tempos de idealismo e paixão pelo jogo. No andar de baixo, amontoam-se fãs histéricas, advogados e empresários em busca de esquemas milionários, novos jogadores à espera de oportunidades, misturando numa série de histórias todas as emoções ligadas ao futebol.

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Há mais diferenças do que semelhanças entre Boleiros – Era uma Vez o Futebol (1998) e Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos. Embora os dois filmes tratem de histórias de futebol e sejam assinados pelo mesmo diretor, Ugo Giorgetti, há uma notável mudança de tom. O segundo filme é bem mais sombrio, embora não falte ironia no traço que delineia jogadores, empresários, fãs e sonhadores com a glória do mundo da bola, que habitam os dois filmes.

O sonho principal agora está no aeroporto. No Brasil de 2006, o exemplo acabado do sucesso, para um jogador, é ser contratado por um time de fora. Por isso, o herói que mais causa inveja geral é Marquinhos (José Trassi), jogador do Roma, em rápida visita a São Paulo, na inauguração de um bar, que tem em sociedade com Aurélio (Sílvio Luiz), um ex-jogador.

O ambiente do bar – que já existia no primeiro filme – é perfeito para evidenciar as posições dos personagens. Na entrada e no andar de baixo, o principal, colocam-se os protagonistas, todos interessados em dinheiro – como a advogada corrupta (Lavinia Pannunzio), envolvida com o irmão presidiário (Anderson de Oliveira) de Marquinhos, que vai extorquir algum dinheiro do empresário dele, Lauro (Paulo Miklos).

Abandonados no mezzanino, os velhos jogadores observam do alto o jogo bruto do culto à celebridade e da negociata do andar de baixo: Otávio (Adriano Stuart), Naldinho (Flávio Migliaccio) e Sócrates, o ex-craque corintiano. São destes veteranos as observações certeiras sobre a realidade, a reserva moral e de humor de toda a situação. Por causa deles, o filme não perde a ironia.

Entre as histórias, a mais saborosa é a do técnico Edil (Lima Duarte) - cópia fiel de Filipão, atual técnico da seleção portuguesa - e seu auxiliar, Barbosa (Duda Mamberti). Edil faz o gênero pragmático, retranqueiro e jogando só pela tabela. Barbosa, por sua vez, sonha com o futebol-arte. Um conflito de espíritos que está sempre por trás de quem ama este jogo.

Giorgetti não procura nunca dourar a pílula. Pinta todos os seus personagens pelo vinco da ambição ou do mero pouco caso – caso da repórter de cultura (Fernanda D´Umbra) que, por acaso, vem cobrir uma matéria de esporte. Por isso, será difícil enxergar no filme uma comédia. O cineasta quer refletir sobre o jogo e sobre a vida, até porque a fronteira entre uma coisa e outra é nenhuma. Se o futebol no Brasil vai mal, por conta de negociatas e vaidades, é porque o resto do País também vem tolerando essas armadilhas. Ao assumir essa postura crítica, o diretor usa o futebol para refletir sobre o Brasil, como fez, com tanta contundência, no injustamente mal-recebido O Príncipe (2002). De lá para cá, nada melhorou. Boleiros 2 chega como mais um sinal de alerta. Como dizia o velho samba: “Se gritar ‘pega, ladrão!’, não fica um, meu irmão”...

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