03/07/2026
Suspense

Instinto Selvagem 2

Anos depois dos eventos mostrados no primeiro filme, Catherine Tramell (Sharon Stone) está morando em Londres. Depois de perder o namorado num acidente de carro, ela é mandada para um psiquiatra, com quem acaba se envolvendo.

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Pouco depois que sua cliente terminou por conta própria uma sessão de terapia e o tratamento todo, conta um psiquiatra para uma colega. “Ela simplesmente foi embora. Que lacaniana”, diz a outra psiquiatra. Se Lacan não tivesse morrido em 1981, ele poderia muito bem fazer como Marshall McLuhan fez em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e entrar em cena para discutir com os personagens. Mas é pouco provável que ele se prestasse a tal serviço. Esse pequeno diálogo serve para ilustrar um pouco da mediocridade de Instinto Selvagem 2, que chega aos cinemas quatorze anos depois do grande sucesso do primeiro filme, que alavancou a carreira de Sharon Stone.

Ela é novamente a escritora ninfomaníaca Catherine Tramell que, depois de fazer horrores com um picador de gelos e um par de pernas em San Francisco, agora está morando em Londres. Depois de se envolver num acidente no qual morre o seu namorado jogador de futebol, ela é mandada pela policia para o psiquiatra Michael Glass (David Morrissey), que deverá avalia-la.

Catherine (ou seria Sharon?) exala sensualidade em cada movimento. A verdade é que ela é sexy e desejável até mesmo quando não faz nada. Aqui sai de cena aquela naturalidade que fez da atriz uma estrela e um símbolo sexual na década passada para transformar numa sensualidade calculada. A personagem quer seduzir cada ser humano que está num raio de cem metros – o que não é difícil para Sharon, e, por isso mesmo ela não precisava se esforçar tanto. Aparentemente nenhum personagem do filme está imune ao seu poder – mesmo que isso nunca seja externado.

Catherine, é claro, acaba se envolvendo com seu médico (ética médica: zero), e crimes misteriosos começam a acontecer. As mortes, aliás, são muito parecidas com seu novo livro – um thriller erótico barato, gênero, aliás, que cai muito bem ao filme. Investigando-a está o detetive Roy Washburn (David Thewlis).

Não adianta procurar em Instinto Selvagem 2 o mesmo teor erótico que fez a alegria de muitos em 92. As cenas mais ‘picantes’ são poucas e nada tórridas– muito pelo contrário. Dirigido por Michael Caton-Jones (O último suspeito), o longa não tem a mesma falta de pudor e senso anárquico (porque não?) do primeiro. Aqui, em momento algum ela sai de casa se esquecendo de usar roupa íntima. O diretor, aliás, parece não ter o menor respeito por sua atriz. Em diversos momentos, closes principalmente, ele parece frisar que a estrela não é imune à idade.

Boa parte da decepção causada pelo filme é culpa de Sharon Stone, que disse diversas vezes que não se importaria de aparecer nua aos 48 anos, e que Hollywood não dá a menor bola para mulheres mais velhas. Ela está coberta de razão em ambos os casos. Mas ela não precisava se submeter a cenas de nudez constrangedoras, e, não vai ser Instinto Selvagem 2, que irá trazer bons papéis para as mulheres mais maduras no cinema norte-americano.

O roteiro reserva algumas pérolas que seriam hilárias na boca de alguma personagem da série Sex and the City, mas que aqui, levadas a sério, são patéticas. Pouco depois de perder o namorado num acidente na primeira cena, em que Catherine dirigia ao mesmo tempo que fazia sexo com ele, ela diz para o detetive que está tão traumatizada que não sentirá prazer nunca mais – ou algo parecido. E o casal de roteiristas Leora Barish e Henry Bean (de Tolerância Zero) achou que alguém ia levar isso a sério?

Não existe uma razão específica para situar o filme em Londres – a não ser, talvez, pelo fato de mostrar um famoso prédio de aspecto fálico localizado na capital da Inglaterra. O elenco britânico também não faz nada de especial, a não se flertar com Sharon Stone. E nem Charlotte Rampling parece imune a isso.

Instinto Selvagem 2 foi um filme que ficou em gestação por anos. Sharon Stone ora discordava com o roteiro, ora com o ator sugerido para ser seu parceiro e, às vezes, ninguém queria mesmo era fazer esse filme. Ela já provou que é capaz de ser bem melhor na tela, basta ver o recente Flores Partidas ou Cassino, que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Agora, é só torcer para que Catherine Tramell seja esquecida logo, e de uma vez por todas.

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