Ela é novamente a escritora ninfomaníaca Catherine Tramell que, depois de fazer horrores com um picador de gelos e um par de pernas em San Francisco, agora está morando em Londres. Depois de se envolver num acidente no qual morre o seu namorado jogador de futebol, ela é mandada pela policia para o psiquiatra Michael Glass (David Morrissey), que deverá avalia-la.
Catherine (ou seria Sharon?) exala sensualidade em cada movimento. A verdade é que ela é sexy e desejável até mesmo quando não faz nada. Aqui sai de cena aquela naturalidade que fez da atriz uma estrela e um símbolo sexual na década passada para transformar numa sensualidade calculada. A personagem quer seduzir cada ser humano que está num raio de cem metros – o que não é difícil para Sharon, e, por isso mesmo ela não precisava se esforçar tanto. Aparentemente nenhum personagem do filme está imune ao seu poder – mesmo que isso nunca seja externado.
Catherine, é claro, acaba se envolvendo com seu médico (ética médica: zero), e crimes misteriosos começam a acontecer. As mortes, aliás, são muito parecidas com seu novo livro – um thriller erótico barato, gênero, aliás, que cai muito bem ao filme. Investigando-a está o detetive Roy Washburn (David Thewlis).
Não adianta procurar em Instinto Selvagem 2 o mesmo teor erótico que fez a alegria de muitos em 92. As cenas mais ‘picantes’ são poucas e nada tórridas– muito pelo contrário. Dirigido por Michael Caton-Jones (O último suspeito), o longa não tem a mesma falta de pudor e senso anárquico (porque não?) do primeiro. Aqui, em momento algum ela sai de casa se esquecendo de usar roupa íntima. O diretor, aliás, parece não ter o menor respeito por sua atriz. Em diversos momentos, closes principalmente, ele parece frisar que a estrela não é imune à idade.
Boa parte da decepção causada pelo filme é culpa de Sharon Stone, que disse diversas vezes que não se importaria de aparecer nua aos 48 anos, e que Hollywood não dá a menor bola para mulheres mais velhas. Ela está coberta de razão em ambos os casos. Mas ela não precisava se submeter a cenas de nudez constrangedoras, e, não vai ser Instinto Selvagem 2, que irá trazer bons papéis para as mulheres mais maduras no cinema norte-americano.
O roteiro reserva algumas pérolas que seriam hilárias na boca de alguma personagem da série Sex and the City, mas que aqui, levadas a sério, são patéticas. Pouco depois de perder o namorado num acidente na primeira cena, em que Catherine dirigia ao mesmo tempo que fazia sexo com ele, ela diz para o detetive que está tão traumatizada que não sentirá prazer nunca mais – ou algo parecido. E o casal de roteiristas Leora Barish e Henry Bean (de Tolerância Zero) achou que alguém ia levar isso a sério?
Não existe uma razão específica para situar o filme em Londres – a não ser, talvez, pelo fato de mostrar um famoso prédio de aspecto fálico localizado na capital da Inglaterra. O elenco britânico também não faz nada de especial, a não se flertar com Sharon Stone. E nem Charlotte Rampling parece imune a isso.
Instinto Selvagem 2 foi um filme que ficou em gestação por anos. Sharon Stone ora discordava com o roteiro, ora com o ator sugerido para ser seu parceiro e, às vezes, ninguém queria mesmo era fazer esse filme. Ela já provou que é capaz de ser bem melhor na tela, basta ver o recente Flores Partidas ou Cassino, que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Agora, é só torcer para que Catherine Tramell seja esquecida logo, e de uma vez por todas.
