O que falta a Rent – Os Boêmios é uma direção mais engajada, com mais personalidade. Chris Columbus (Harry Potter e a Pedra Filosofal) faz um trabalho apenas competente com a câmera, deixando que a música e as coreografias falem por si mesmas. O que não é algo ruim para um musical, mas muitas vezes o que está na tela é apenas uma peça filmada, sem elementos que fariam dela cinema.
Larson era um jovem de 29 anos, quando no final dos anos 80 começou a criar Rent. Morreu poucos dias antes da estréia da primeira montagem. O escritor estava com vinte e poucos anos quando houve o boom da AIDS em meados dos anos 80, por isso, não é de se estranhar que a doença, a morte e busca pela redenção sejam o centro da história. Era uma época em que a doença matava muito mais do que hoje, os remédios eram menos acessíveis e se sabia quase nada sobre o HIV.
Situada alguns anos antes, está a peça Angels in America (transformada em série para a TV, e lançada em DVD no Brasil), também ganhadora do Pulitzer, e que lidou com a mesma temática. Porém, se nessa obra os personagens estão confusos sobre o que é a doença, de onde veio, em Rent essas questões se transformaram na tentativa de prolongar um pouco mais a vida. Como diz um personagem, ele quer escrever ‘a última canção antes que o vírus tome conta’.
Os personagens são um grupo de jovens na faixa dos 20 anos que moram um prédio velho e não pagam o aluguel há um certo tempo. São na verdade um grupo de artistas tentando um lugar ao sol. Há o cineasta que não quer se vender para Hollywood, o compositor que busca a grande canção, a vídeo-artista que faz protestos, o travesti performático, entre outros. Interessante que Larson dá um tratamento muito humano a todos eles, embora eles cantem e dancem o tempo todo. Muitos personagens e tramas vêm quase intactos de La Bohème. A tuberculose, por exemplo, é substituída pela AIDS, mas a aflição e o medo que pessoas sentem são os mesmos. No entanto, muito do que está na história, porém, veio de eventos contemporâneos, como um quebra-quebra que aconteceu numa praça em 88.
O elenco principal do filme Rent é, em sua maioria, o mesmo da montagem original da Broadway – exceto por Rosario Dawson e Tracie Thoms, que fazem a dançarina Mimi e a advogada homossexual Joanne. Na tela, os atores deixam transparecer a segurança de quem domina não só seu personagem, mas tem entrosamento com o restante do grupo.
Rent é um musical e um filme que pede ao seu público que se desligue da realidade por algumas horas. É um trabalho que celebra o espírito juvenil da coragem de sonhar – como Fama e Hair. Era exatamente disso que os jovens precisavam na época: o incentivo ao sonho, ao futuro. Em tempos obscuros, as pessoas voltam-se para a arte em busca de um escapismo, e Rent é exatamente isso: um espetáculo escapista, com um pé fincado na realidade. Não é difícil, ao menos por duas horas, deixar de ser um ‘dos outros’ e tornar-se ‘um de nós’, como convidam os personagens do filme.
