19/07/2026
Drama

Pergunte ao Pó

Arturo Bandini (Colin Farrell) é um jovem escritor que se muda para Los Angeles em busca de ser descoberto. Com apenas algumas histórias publicadas em revistas, ele tenta escrever um grande romance e sobreviver, mesmo sem ter um tostão. Quando o dinheiro acaba por completo, conta com a ajuda de um vizinho (Donald Sutherland), idoso e recluso, que o ajuda a roubar garrafas de leite. E também se envolve com uma garçonete mexicana, Camila (Salma Hayek).

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Numa das primeiras páginas do romance Pergunte ao Pó, de John Fante, o narrador e personagem central Arturo Bandini brada “Los Angeles, me dê um pouco de você! Los Angeles, venha até mim como fui até você, meus pés em suas ruas, lugar lindo que tanto amei, flor na areia, seu belo lugar”. Em suas páginas, o autor conta duas história de amor: a do personagem por uma garçonete mexicana, e a outra, entre ele e a cidade. Na transposição que fez para a tela, o produtor, roteirista e diretor Robert Towne mantém-se fiel à atmosfera criada no romance. Assim não faz concessões para tornar seu filme facilmente acessível. Esta é a maior qualidade e o maior ‘defeito’ de Pergunte ao Pó, no qual Towne trabalha há cerca de trinta anos.

Publicado no final dos anos 30, Pergunte ao Pó é uma obra semi-autobiográfica. Fante conta a história de um jovem escritor que se muda para Los Angeles em busca de ser descoberto. Com apenas algumas histórias publicadas em revistas, Bandini (Colin Farrell) tenta escrever um grande romance e sobreviver mesmo sem ter um tostão. Quando o dinheiro acaba por completo, conta com a ajuda de um vizinho (Donald Sutherland), idoso e recluso, que o ajuda a roubar garrafas de leite. Mas isso não é suficiente.

Quando decide gastar seus últimos níqueis, vai até um bar tomar café. Lá conhece a garçonete mexicana Camila (Salma Hayek). Entre idas e vindas, os dois embarcam num romance marcado pela melancolia – assim como o filme. Os dois nunca parecem estar completamente felizes, mesmo quando aparentam uma certa felicidade. Os problemas exteriores a eles são maiores do que a força que os une, aparentemente. O caso entre os dois acaba ganhando um pouco mais de destaque no filme do que no livro, conduzindo assim o roteiro.

Fante tinha cerca de 30 anos quando escreveu este que foi um de seus primeiros livros. Towne tem quase 70 anos e essa diferença, não só de idades mas de interesses e visões de mundo, transparece na tela. O escritor imprimiu ao seu texto um ritmo mais urgente, uma busca mais desesperada. O cineasta, por sua vez, faz um trabalho mais reflexivo, ajudado pela fotografia de Caleb Deschanel (o mesmo de A Paixão de Cristo), que recria a luz típica de Los Angeles – que parece coberta por uma bruma de poeira.

Rodado quase que inteiramente na África do Sul – que funciona perfeitamente como a Los Angeles dos anos 30 –, Pergunte ao Pó tem o mesmo quê de filmes que mostram personagens em busca de sucesso na grande cidade – como o ótimo O Dia do Gafanhoto (75), sobre um grupo de pessoas em Hollywood dos anos 30 que tentam um lugar ao sol.

Fante ficou esquecido por anos e foi ‘redescoberto’ por Charles Bukowski, que o considerava uma espécie de mentor. O autor de Pergunte ao Pó foi resgatado da obscuridade nos anos 70. Towne, com suas produções, também é uma espécie de discípulo de Fante, retratando Los Angeles e seus tipos com honestidade, como Uma Rajada de Balas e Chinatown.

Farrell acerta na composição de um personagem complexo e angustiado, que busca inspiração para sobreviver de seus escritos. E consegue isso sem cair na caricatura ou fazer apenas caras e bocas – certamente, um papel para o qual se empenhou. E, embora, às vezes não haja muita química entre ele e Salma, o romance entre os dois é tão forte e bem delineado que parece haver, ao menos, uma atração.

Pergunte ao Pó é, acima de tudo, uma declaração de amor a Los Angeles e aos tipos que a habitam. Como Fante e Bandini, Towne pede à cidade para dar-lhe um pouco de si. Ele a mostra como é e o quanto a ama. Visitar a cidade ao lado dessas figuras pode ser fascinante, desde que esteja disposto a se pagar o preço da passagem.

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