30/07/2026
Drama Comédia

Eu, Você e Todos Nós

Christine é uma artista conceitual que busca uma chance para sua carreira. Ela conhece o vendedor de sapatos Richard, que acabou de se separar. Apaixonada por ele, começa a procurá-lo em todos os cantos. Enquanto isso, ele tenta lidar com seus filhos pequenos e outros problemas.

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Quando tudo parece perdido para o cinema norte-americano, com filmes barulhentos e ruins, como O Código Da Vinci, Missão Impossível 3 e X-Men 3, eis que uma lufada de sensibilidade e inteligência vem do primo pobre: o cinema independente. Eu, Você e Todos Nós (premiado em Cannes, com o Caméra D’Or, e em Sundance, no ano passado) , que marca a estréia da artista Miranda July na direção, é um exemplar quase icônico do que é possível se fazer em cinema, com pouco dinheiro e muitas idéias. O longa é o indie na sua essência, com muita criatividade, algum ideal e liberdade para explorar forma e narrativa.

A formação e o trabalho de Miranda como artista conceitual, trabalhando com vídeo, deram a ela a possibilidade de um olhar que encontra nos objetos e nos eventos uma possibilidade estética. Em Eu, Você e Todos Nós há não apenas artifícios narrativos, mas também uma exploração visual do universo dos personagens, que é banhado por uma luz solar pálida e quase constante e tons primaveris. Bem-vindo ao mundo de Miranda!

Essa delicadeza visual busca traduzir o tema central do filme: a solidão. Embora com todos aparatos tecnológicos que abundam atualmente (internet, televisão, câmeras digitais) as pessoas estão cada vez mais distantes e os relacionamentos mais frios. A busca pelo outro ainda é inevitável, é a natureza humana. Encontrar uma pessoa com quem se relacionar já é mais complicado – mas não impossível. Os personagens deste filme estão em busca de alguém que os complemente – embora nem sempre saibam disso. Muitas vezes, parecem pervertidos saídos de um filme de Larry Clark, ou de Todd Solondz, mas aí entra a sensibilidade de Miranda. Seus personagens não têm nada a ver com aqueles criados por esses diretores. Aqui, impera o humanismo.

Com um comando narrativo e visual raro em estreantes, Miranda vai penetrando aos poucos na alma das pessoas que habitam o seu mundo e cada personagem vai se tornando centro da ação. À diretora cabe um papel importante (e não de todo impossível, com tintas autobiográficas). Ela é uma vídeo-artista, chamada Christine, que busca uma chance de expor sua arte – enquanto isso não vem, ela não desiste de expressar-se. Outra alma perdida é o vendedor de sapatos Richard (John Hawkes), que acabou de se separar e ocasionalmente fica com os filhos. Com uma certa predisposição à autodestruição, ele busca colocar o seu mundo de volta na órbita.

São, de certa forma, as figuras centrais que vão abrindo a rede de possibilidades para os outros personagens crescerem. Robby (Brandon Ratcliff), o filho de seis anos de Richard, navega pela internet e involuntariamente seduz uma mulher que toma o comportamento infantil dele por um jogo sexual – sem saber a idade do garoto. Já o irmão mais velho, adolescente, está descobrindo as possibilidades amorosas e flerta com diversas mulheres, de diversas idades.

Miranda vê esses seres estranhos, almas perdidas, com ternura. Seu olhar busca do lado humano de cada criatura e o encontra com facilidade. Assim, Eu, Você e Todos Nós vai conquistando aos poucos, à medida em que desarma seus personagens e os expõem como criaturas de carne e osso, como eu, você e todos nós.

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