Como na maioria dos filmes da Pixar, não-humanos servem como ferramenta para contar uma história que poderia muito bem ser vivida por seres humanos. O roteiro, escrito pelo diretor John Lasseter (Vida de Inseto) e outros dez profissionais, usa uma história que poderia muito bem ser um filme de Frank Capra. Um jovem modernoso e um pouco pedante acaba ficando preso numa pequena cidade do interior, que tenta ser novamente atraente. No final, os dois vão ter se transformado. O rapaz vai aprender uma lição de vida e a cidadezinha e seus moradores estarão revitalizados. A diferença é que o personagem principal não é um rapaz, mas um carro de corrida.
Relâmpago McQueen (dublado por Owen Wilson, na versão original, e por Marcelo Garcia, na versão brasileira) é um jovem carro de corridas que tem uma longa estrada a percorrer para redescobrir os valores básicos da vida. Pois embora o sucesso já esteja despontando, está subindo ao seu motor. Porém, após um empate numa competição importante, ele terá de viajar para a Califórnia. Uma série de incidentes o leva para a pequena Radiator Springs, onde involuntariamente protagoniza uma avalanche de destruição. Condenado a refazer o asfalto da estrada, o carrinho só poderá sair da cidade depois de cumprir a pena – embora ele tente algumas fugas, que não funcionam.
Radiator Springs, como Monstropolis (em Monstros S.A.) e o fundo do mar (em Procurando Nemo), é a desculpa para a criação de diversos tipos humanos, ou melhor, motorizados, que vão cruzar e mudar a vida de McQueen. Paul Newman, na versão original, (e Daniel Filho, na versão nacional) dubla um Hudson Hornet 1951, chamado Doc, que representa a voz da sabedoria. O impagável Mate (Larry The Cable Guy/Mario Jorge) vai ensinar as coisas simples da vida, que McQueen parece ter esquecido – como assustar tratores bovinos à noite ou o valor da amizade. Já uma Porsche 2002 chamada Sally Carrera (Bonnie Hunt/Priscila Fantin) vai ser o interesse amoroso do herói. Há uma série de coadjuvantes, como os borracheiros italianos, a Kombi hippie e o caminhão de bombeiros tímido que ajudam a compor um painel colorido e divertido da cidade.
Embora Carros não consiga uma comunicação diferenciada com públicos de diversas idades, como os outros filmes da Pixar, o desenho ainda se mantém bem acima de seus concorrentes. As piadas, desta vez, são mais simples, mas ainda assim, divertem. A atenção de Lasseter com os detalhes impressiona, como os fusquinhas que são os insetos e os tratores bovinos, ou a seqüência durante os créditos finais. Além disso, como é típico em desenhos do estúdio, muitos dos personagens têm fisionomias parecidas com as de seus dubladores originais, como é do caso principalmente de Doc.
Para as crianças, além de divertir com seu colorido vibrante, sua montagem ágil e seus personagens, Carros mostra algumas lições, como a de que nem sempre é preciso ser um vencedor para ser o campeão. Parece que essa é a lição que a Pixar quer dar em seus concorrentes. Não é preciso ser genial o tempo todo para ser vitorioso.
