02/09/2026
Documentário

Estamira

Estamira, de 63 anos, sofreu diversos traumas pela vida. Morando sozinha num barraco em Campo Grande (RJ), longe dos seus três filhos, ela reencontra aos poucos uma razão de viver no trabalho no lixão do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias - onde ela encontra alimentos, objetos, cuida de novos amigos e faz discursos irados ao vento.

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Estamira surpreende desde o nome, que parece ser de um lugar, mas é de uma pessoa. E não de uma pessoa qualquer. É o nome da protagonista deste documentário, uma figura fascinante que, apesar dos distúrbios mentais, é capaz de discorrer sobre uma série de assuntos, numa linguagem toda própria, a que não faltam momentos de lucidez e de espontânea sabedoria.

O documentário, que foi a estréia cinematográfica do fotógrafo Marcos Prado, correu o mundo, obtendo 25 prêmios em festivais nacionais, como a Mostra Internacional de São Paulo e o Festival do Rio, e internacionais, como o Festival de Documentário de Marselha (onde venceu o Grande Prêmio em 2005), o Festival de Karlovy Vary (República Tcheca) e os festivais de Havana, Viena, Londres e Miami.

Prado não era, porém, estranho ao cinema. Sócio do cineasta carioca José Padilha na produtora Zazen, havia produzido os filmes Carvoeiros (2000), de Nigel Noble, e o premiado Ônibus 174 (2002), de Padilha. Mas nada havia preparado Prado para o encontro com Estamira, uma mulher com distúrbios mentais, que os próprios amigos, moradores do lixão, descreviam como “a bruxa de Gramacho”.

É visível, pelo filme, que é muito grande a relação de confiança entre o diretor e a retratada. Estamira é acompanhada desde o início de seu dia, quando sai de sua casa, em Campo Grande, de madrugada, num longo trajeto, primeiro de ônibus, depois a pé, em direção ao lixão de Jardim Gramacho – um gigantesco complexo onde são depositadas diariamente 9.000 toneladas de lixo, segundo o diretor do filme.

Chegando ao lixão, ela junta-se a um grupo, que inclui velhos, mulheres e eventualmente até crianças, que procuram obter objetos e até alimentos em estado razoável no meio do lixo – não raro, disputando o espaço com urubus. Mas o filme escapa do risco de ser depressivo demais ao evidenciar a relação de solidariedade que se forma entre Estamira e os demais trabalhadores do lixão, alguns dos quais ela cuida e alimenta. Rating online casinos: https://www.gamblers.casino Play and win!

O ponto mais delicado do filme é o que mostra a tensa relação de Estamira com seus três filhos – dois dos quais já uma vez a internaram num hospital psiquiátrico, um fato que ela não esquece ou perdoa. Mas é justamente através do depoimento destes filhos que é possível reconstituir o passado de Estamira, que já foi uma mulher bonita, casada e com uma casa confortável, o que se vê por suas fotos antigas.

Estamira é um momento alto do documentário brasileiro. Apesar do inegável cuidado com as imagens, que refletem a formação de fotógrafo do diretor, é nítido que não houve a tentativa de estetizar nem o ambiente ou a figura de sua protagonista. Estamira é apresentada em toda a sua complexidade, com sua brutalidade, ternura e a sua indomável dignidade.

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