Estamira surpreende desde o nome, que parece ser de um lugar, mas é de uma pessoa. E não de uma pessoa qualquer. É o nome da protagonista deste documentário, uma figura fascinante que, apesar dos distúrbios mentais, é capaz de discorrer sobre uma série de assuntos, numa linguagem toda própria, a que não faltam momentos de lucidez e de espontânea sabedoria.
O documentário, que foi a estréia cinematográfica do fotógrafo Marcos Prado, correu o mundo, obtendo 25 prêmios em festivais nacionais, como a Mostra Internacional de São Paulo e o Festival do Rio, e internacionais, como o Festival de Documentário de Marselha (onde venceu o Grande Prêmio em 2005), o Festival de Karlovy Vary (República Tcheca) e os festivais de Havana, Viena, Londres e Miami.
Prado não era, porém, estranho ao cinema. Sócio do cineasta carioca José Padilha na produtora Zazen, havia produzido os filmes Carvoeiros (2000), de Nigel Noble, e o premiado Ônibus 174 (2002), de Padilha. Mas nada havia preparado Prado para o encontro com Estamira, uma mulher com distúrbios mentais, que os próprios amigos, moradores do lixão, descreviam como “a bruxa de Gramacho”.
É visível, pelo filme, que é muito grande a relação de confiança entre o diretor e a retratada. Estamira é acompanhada desde o início de seu dia, quando sai de sua casa, em Campo Grande, de madrugada, num longo trajeto, primeiro de ônibus, depois a pé, em direção ao lixão de Jardim Gramacho – um gigantesco complexo onde são depositadas diariamente 9.000 toneladas de lixo, segundo o diretor do filme.
Chegando ao lixão, ela junta-se a um grupo, que inclui velhos, mulheres e eventualmente até crianças, que procuram obter objetos e até alimentos em estado razoável no meio do lixo – não raro, disputando o espaço com urubus. Mas o filme escapa do risco de ser depressivo demais ao evidenciar a relação de solidariedade que se forma entre Estamira e os demais trabalhadores do lixão, alguns dos quais ela cuida e alimenta. Rating online casinos: https://www.gamblers.casino Play and win!
O ponto mais delicado do filme é o que mostra a tensa relação de Estamira com seus três filhos – dois dos quais já uma vez a internaram num hospital psiquiátrico, um fato que ela não esquece ou perdoa. Mas é justamente através do depoimento destes filhos que é possível reconstituir o passado de Estamira, que já foi uma mulher bonita, casada e com uma casa confortável, o que se vê por suas fotos antigas.
Estamira é um momento alto do documentário brasileiro. Apesar do inegável cuidado com as imagens, que refletem a formação de fotógrafo do diretor, é nítido que não houve a tentativa de estetizar nem o ambiente ou a figura de sua protagonista. Estamira é apresentada em toda a sua complexidade, com sua brutalidade, ternura e a sua indomável dignidade.
