03/07/2026
Documentário

Bolívia - História de uma Crise

A ação dos marqueteiros nas campanhas políticas está no centro deste documentário, que acompanha o trabalho de um grupo de consultores americanos nas eleições bolivianas de 2002. O filme revela os bastidores da eleição de Gonzalo Sánchez de Lozada e a crise social que o derrubou do poder, abrindo espaço a uma nova eleição e sua substituição por Evo Morales.

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Marqueteiros políticos tornaram-se uma das marcas registradas das eleições modernas. A ponto de hoje não haver país imune à sua ação. As empresas de profissionais, como James Carville, responsável pela estratégia que levou Bill Clinton ao poder nos EUA, prosperaram, tornando-se verdadeiras multinacionais da eleição. Estenderam seus tentáculos à América Latina, atuando em países como o Brasil (o próprio Carville andou palpitando na última campanha de Lula à Presidência, em 2002) e também à Bolívia.

O documentário da americana Rachel Boynton acompanha a ação de Carville e seus engravatados associados na empresa GCS Pollster na eleição boliviana de 2002, que levou ao poder Gonzalo Sánchez de Lozada, mais conhecido como Goni. Empresário de 72 anos, criado nos EUA, Goni já havia sido presidente entre 1993 e 1997, num mandato que se notabilizou pela implantação implacável dos princípios da globalização e uma grave crise social, causada especialmente pelo desemprego.

Cinco anos depois, Goni está de volta, disposto a convencer os bolivianos de que sua política econômica não ceifou tantos empregos quanto a opinião pública acredita. Começa a campanha em desvantagem contra seus dois oponentes, o ex-militar Manfred Reyes Villa, e o líder cocalero indígena Evo Morales, mas afinal vence com uma diferença de menos de 2% dos votos.

Desfrutando de uma liberdade notável, a documentarista tem livre acesso aos bastidores da campanha de Goni. Capta conversas extremamente francas entre os próprios marqueteiros americanos sobre as limitações do candidato que defendem. Esse detalhe permite ao filme expor as entranhas do marketing político de uma maneira inusitada e extremamente pertinente.

Por conta disso, pode-se avaliar como a ação dos marqueteiros desloca a discussão do campo da política para o da publicidade, de onde empresta seus principais métodos. Outro aspecto importante é o acompanhamento ao dia seguinte à eleição, ou seja, o governo Goni. Na verdade, o presidente tem pouco tempo para comemorar a vitória. Logo explodem em manifestações de rua as tensões historicamente acumuladas pela pobreza, o desemprego e a desigualdade social e até étnica (os índios, esmagadora maioria da população, são os mais pobres). Ainda assim, o presidente, que tem um peculiar sotaque estrangeiro, devido aos anos passados nos EUA, continua conversando mais com seus marqueteiros americanos do que com o povo. Às negociações com os líderes dos protestos, como Evo Morales, manda sempre seu vice, Carlos Mesa.

Pouco mais de um ano depois da posse, em outubro de 2003, Goni é forçado a renunciar e deixa o país, de volta aos EUA. Seu vice o substitui por um tempo, mas logo é obrigado a convocar novas eleições, em que desta vez vence Morales.

Sintomática sobre a filosofia destes marqueteiros é a declaração de um deles, Jeremy Rosner, sobre o que deu errado na Bolívia: “Aconteceu o mesmo que na guerra civil americana, no século XIX. Há situações com que a democracia não pode lidar”.

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