O documentário da americana Rachel Boynton acompanha a ação de Carville e seus engravatados associados na empresa GCS Pollster na eleição boliviana de 2002, que levou ao poder Gonzalo Sánchez de Lozada, mais conhecido como Goni. Empresário de 72 anos, criado nos EUA, Goni já havia sido presidente entre 1993 e 1997, num mandato que se notabilizou pela implantação implacável dos princípios da globalização e uma grave crise social, causada especialmente pelo desemprego.
Cinco anos depois, Goni está de volta, disposto a convencer os bolivianos de que sua política econômica não ceifou tantos empregos quanto a opinião pública acredita. Começa a campanha em desvantagem contra seus dois oponentes, o ex-militar Manfred Reyes Villa, e o líder cocalero indígena Evo Morales, mas afinal vence com uma diferença de menos de 2% dos votos.
Desfrutando de uma liberdade notável, a documentarista tem livre acesso aos bastidores da campanha de Goni. Capta conversas extremamente francas entre os próprios marqueteiros americanos sobre as limitações do candidato que defendem. Esse detalhe permite ao filme expor as entranhas do marketing político de uma maneira inusitada e extremamente pertinente.
Por conta disso, pode-se avaliar como a ação dos marqueteiros desloca a discussão do campo da política para o da publicidade, de onde empresta seus principais métodos. Outro aspecto importante é o acompanhamento ao dia seguinte à eleição, ou seja, o governo Goni. Na verdade, o presidente tem pouco tempo para comemorar a vitória. Logo explodem em manifestações de rua as tensões historicamente acumuladas pela pobreza, o desemprego e a desigualdade social e até étnica (os índios, esmagadora maioria da população, são os mais pobres). Ainda assim, o presidente, que tem um peculiar sotaque estrangeiro, devido aos anos passados nos EUA, continua conversando mais com seus marqueteiros americanos do que com o povo. Às negociações com os líderes dos protestos, como Evo Morales, manda sempre seu vice, Carlos Mesa.
Pouco mais de um ano depois da posse, em outubro de 2003, Goni é forçado a renunciar e deixa o país, de volta aos EUA. Seu vice o substitui por um tempo, mas logo é obrigado a convocar novas eleições, em que desta vez vence Morales.
Sintomática sobre a filosofia destes marqueteiros é a declaração de um deles, Jeremy Rosner, sobre o que deu errado na Bolívia: “Aconteceu o mesmo que na guerra civil americana, no século XIX. Há situações com que a democracia não pode lidar”.
