20/07/2026

Lemming - Instinto Animal

Dois casais e várias situações bizarras envolvem a atmosfera desse longa de suspense e humor negro. Tudo começa com um jantar em que Alice (Charlotte Rampling) briga com seu marido Richard (André Dussolier), na casa do empregado dele, Alain (Laurent Lucas), e sua mulher Bénédicte (Charlotte Gainsbourg). Os quatro acabarão unidos por uma série de acontecimentos.

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O lemingue é um mamífero roedor que vive geralmente na Escandinávia. De tempos em tempos, quase toda população deles afoga-se no mar mais próximo. Acredita-se que o animal seja propenso ao suicídio. “Mera visão romântica sobre os animais”, alega um especialista nessa espécie a certa altura na comédia-de-humor-negro/suspense Lemming – Instinto Animal, do francês Dominik Moll (Harry, que veio para ajudar. Até existe um lemingue de verdade no filme – o animal, aliás, dá início à trama – mas os metafóricos são muito mais importantes.

O que começa como espécie de Quem Tem Medo de Virginia Wolf? encontra O Discreto Charme da Burguesia caminha cada vez mais para o bizarro nas mãos de Moll que, como no seu primeiro filme, se mostra um mestre em encontrar o que há de estranho num mundo supostamente normal. Em Harry um sujeito se instala na casa do amigo, querendo sempre ser útil, mas desencadeia uma série de estragos. Aqui, também há um personagem que se convida a ficar na casa de um casal e causa um grande transtorno.

Os momentos de ‘normalidade’ em Lemming são raros. Depois de uma cena introdutória em que Alain (Laurent Lucas) mostra a seu chefe Richard (André Dussolier) como funciona uma webcam com hélices, nada mais ocorre de maneira normal ao longo das pouco mais de duas horas de filme. O engenheiro e sua mulher Bénédicte (Charlotte Gainsbourg) oferecem um jantar para o patrão e sua mulher Alice (Charlotte Rampling), mas se descobre que a pia está entupida. Durante o jantar, Alice não tira os óculos escuros e começa a discutir com o marido, na frente do outro casal que acabou de conhecer.

O problema no encanamento é um lemingue, que Alain pensa ter se afogado. O que vem depois são problemas maiores ainda. Assédio sexual, um tiro fatal e um fantasma atormentando a vida de um casal são apenas alguns elementos que dão consistência à atmosfera hitchcockiana do filme.

Moll transita entre o sobrenatural, o mundano e o inofensivo, dando um nó proposital nas cabeças de seu público e seus personagens. O lemingue pode ser um aviso, uma inspiração ou mesmo uma coincidência para os fatos que se desenrolam. Já a presença de Rampling não tem nada de casual. Quase sempre gélida, ela é a personagem mais atuante na primeira metade do filme, desencadeando a trama. A intérprete inglesa mais francesa da atualidade é sensualidade e ameaça.

Por um lado, Moll e o co-roteirista Gilles Marchand são capazes de criar um clima de pesadelo gótico, deixando muita dúvida no ar. Também conseguem prender a atenção com uma atmosfera sombria e constante questionamento sobre o que realmente está acontecendo. Por outro, Lemming acaba sendo frustrante ao resolver boa parte das dúvidas de forma explícita.

O personagem Alain tem, desde o início, uma obsessão pelo controle, seja das situações, de si mesmo ou das outras pessoas. Porém, ele vai perdendo essa característica aos poucos. Quem nunca perde o controle é o diretor Moll, que sabe o que quer com suas cenas e diálogos – embora 20 minutos a menos não fizessem muita diferença em Lemming – Instinto Animal. Parece que, num mundo tão bizarro e assustador, o suicídio pode ser a única saída, mesmo para quem não é um lemingue.

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