04/06/2026
Drama

O Sabor da Melancia

Taiwan vive uma seca desesperadora. As pessoas acumulam garrafas de água em todo canto de suas casas. Dispara o preço da água e também o da melancia, fruta suculenta. Enquanto isso, produtores de filmes pornôs inventam um uso nada comum para a fruta. Nesse momento, reencontram-se, depois de muito tempo, o jovem Hsiao, ator de filmes pornôs, e Shiang, moça que o conhecia quando ele vendia relógios.

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Neste filme intrigante, ao mesmo tempo pornográfico, musical e tristonho, o diretor Tsai Ming Liang dá seqüência ao projeto cinematográfico de sua obra – em que traça um inquietante retrato da solidão e da sede humana por afeto. Aqui, ele inverte algumas chaves, mas o tema continua o mesmo. A água que percorre de maneira exasperante os caminhos em O Rio (1997) e O Buraco (1998), dois de seus trabalhos anteriores, tem igualmente um peso dramático aqui.

Taiwan vive uma seca enervante, que faz disparar o preço da água e a procura pelas suculentas melancias. Há quem pense em usos heterodoxos para a fruta, como os produtores dos filmes pornôs em que agora trabalha Hsiao Kang (Lee Kang-sheng) – como a maioria do elenco, um habituê do conjunto de atores que participam dos filmes de Ming Liang, tal como uma afinada companhia de repertório.

Num filme anterior, o inédito no circuito comercial brasileiro Que Horas São? (exibido na Mostra Internacional de SP em 2002), o rapaz vendia relógios num viaduto de Taipei. Foi lá que encontrou pela primeira vez a delicada Shiang-chyi (Chen Shiang Chyi), com quem manterá ao longo do filme um romance cuja delicadeza contrasta com as cenas grotescas que ele protagoniza nos filmes pornôs. Uma das cenas mais bonitas, aliás, mostra Hsiao e Shiang se tocando debaixo de uma mesa de jantar.

Mas a história coleciona cenas bizarras, como as seqüências musicais, usadas pela primeira vez na obra do diretor. Há o balé de um estranho ser aquático num tanque, uma dança brega com várias mulheres de figurinos coloridos no túmulo de um herói nacional e a dança da viúva negra, tudo isso comentando a insanidade do cotidiano imensamente opaco destes personagens. Que vida é essas que eles levam, dentro de seus apartamentos antissépticos, agora povoados de garrafas de água por todo canto? A forma como o cineasta mostra a arquitetura urbana, aliás, é uma declaração do que ele pensa sobre a modernidade: circular, anônima, desumana.

Há uma estranheza buñueliana no ataque das formigas aos corpos dos atores lambuzados de suco de melancia e sem poder tomar um banho decente, pela falta d’água. E não é a única referência. Há um desespero fassbinderiano nesta procura que move todos os personagens. Ironicamente, também um pouco de Woody Allen na cena em que Hsiao e Shiang lutam para capturar os caranguejos que trouxeram para o jantar – uma homenagem a uma seqüência parecida de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Há também ecos de O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, em toda parte.

A leitura desta obra provocativa e original, que venceu três prêmios no Festival de Berlim 2005 – Urso de Prata de melhor realização artística, o prêmio da FIPRESCI (Federação Internacional dos Críticos) e o troféu Alfred Bauer – gera um manancial difícil de esgotar. Tsai Ming Liang assina aqui sua obra mais provocativa. E se reafirma como autor original.

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