03/06/2026

Quando a escola de Viola (Amanda Bynes) decide acabar com o time feminino de futebol, a garota adota a identidade do irmão e vai para outro colégio, onde quer provar o seu talento com a bola. Ela acaba se apaixonando pelo colega de quarto, quanto tenta ajudá-lo a conquistar a garota mais bonita da escola -- que se apaixonou por Viola, sem saber da verdadeira identidade dela.

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Há uma ingenuidade no mundo em pensar que as peças de Shakespeare funcionam em qualquer contexto. Há várias provas de que isso é mera ilusão. Para cada boa adaptação (10 Coisas Que Odeio em Você) existem vários filmes ruins (os brasileiros O Casamento de Romeu e Julieta, As Alegres Comadres, Jogo de Intrigas, só para ficar com os mais recentes). Se alguém achou que havia um bom motivo para se atualizar Noite de Reis, essa boa razão foi perdida em algum momento no meio do processo de produção, porque Ela é o Cara resulta numa comédia sem graça, brilho, charme ou razão de ser.

Já Amanda Bynes (Tudo que uma garota quer) é Viola, uma adolescente apaixonada por futebol que descobre não poder mais jogar quando sua escola acaba com o time feminino. Para provar o seu valor, ela assume a personalidade do irmão (que viajou para a Inglaterra), veste-se de menino e se instala no colégio dele para mostrar que merece uma chance no futebol.

Shakespeare é o melhor, e não por acaso. Ele sabe lidar com a questão de amores mal resolvidos, identidades trocadas e a comédia de erros com graça e sagacidade. A idéia de adaptar o tema não é de todo ruim e poderia render boas situações, se o filme não dependesse tanto do talento cômico de Amanda. Se ela o tem, aqui não consegue mostrar nenhum – assim como a sua suposta habilidade com a bola nos pés. Parecida com um menino gorducho e sem muita noção das coisas – quando deveria ser um rapaz atlético, afinal ‘ele’ é um tremendo jogador de futebol – a garota não encontra o tom e fica nas caras-e-bocas, desfiando piadas machistas pois, na cabeça dela, todo adolescente macho vê as meninas como objeto sexual.

É claro que o público-alvo deste filme (as adolescentes) não vai lembrar, mas nos anos 80 houve uma comédia com temática bem parecida e muito, muito mais divertida e inteligente. Quase Igual aos Outros trazia uma adolescente que fingia ser um rapaz para poder ser levada a sério e participar de um concurso de jornalismo. Acabava ajudando um amigo nerd a ficar com a garota mais bonita da escola e se apaixonava por ele. Igualzinho a esse Ela é o Cara, mudando apenas um ou outro detalhe. A grande diferença é que, naquela década, o puritanismo e a síndrome do politicamente correto não assolavam os EUA (e Hollywood por conseqüência) como hoje em dia.

Mulher travestida por mulher travestida, é bem melhor ficar com a Gwyneth Paltrow de Shakespeare Apaixonado (que também se inspira em Noite de Reis). Lá existe tudo o que falta aqui, uma personagem carismática, graça, charme, romance e até o Bardo, em pessoa.

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