Isso nem seria um grande problema, fosse o filme bom. Mas aqui Stone faz o que sempre fez, banalizando grandes acontecimentos históricos e usando a ótica de pequenos dramas pessoais. O 11 de setembro é abordado pela vida de dois oficiais da polícia portuária (Nicolas Cage e Michael Peña) que entram nas Torres Gêmeas logo depois do primeiro ataque, perdem alguns companheiros, e sobrevivem soterrados esperando muitas horas pelo resgate. O diretor transforma tragédia em espetáculo. Removendo-se o contexto da data pouco muda. Os ataques terroristas, a história real, servem de desculpa para mais um filme-desastre, como tantos outros que já foram feitos.
O pouco que há de referencia explícita ao acontecimento, está em momentos que buscam mais polemizar do que discutir algo. Sejam pessoas se jogando do prédio, no início do filme, ou num discurso inflamado do presidente Bush, pouco depois da tragédia. Stone faz a alegria da extrema-direita norte-americana, aquela mesma que defende a intervenção no Iraque, com o personagem chamado Sargento Staff, interpretado por Michael Shannon.
Ele é ex-fuzileiro, agora na vida civil, que abandona tudo para retomar a farda e os deveres militares depois de ver os ataques pela TV. Andando pelos escombros do World Trade Center, será ele quem irá localizar os dois sobreviventes e acionar o resgate. Stone e a roteirista Andrea Berloff colocam um discurso inflamado na boca desse personagem. Numa capela, ele diz “Deus me deu o dom de ajudar as pessoas, de cuidar deste país”. Mais tarde, “é como se Deus fizesse uma cortina de fumaça para que não víssemos o que estamos preparados para ver”, diz em frente aos escombros antes de iniciar a busca. Mas a melhor é quando ele fala que “vamos precisar de homens preparados para revidar esse ataque”. Letreiros, ao final, dizem que Staff voltou para o exército, foi para o Iraque, onde serviu por dois anos. E esse personagem é o grande herói do filme.
Os poucos momentos realmente interessantes e emocionalmente sinceros de As Torres Gêmeas acontecem do lado de fora dos escombros, envolvendo as mulheres dos dois oficiais presos, vividas por Maria Bello e Maggie Gyllenhaal. Suas personagens, perdidas em meio à falta de informação e presas a um último fio de esperança, representam um pouco da honestidade e dignidade de que o filme tanto precisa.
Comparando As Torres Gêmeas com Vôo United 93, o filme de Stone sai perdendo. Aqui, falta toda a relevância e integridade do outro filme. Como não podia deixar de ser, há momentos que pedem lágrimas, mas depois elas se vão tão facilmente quanto vieram. A trilha sonora de Craig Armstrong só colabora no sentido de tornar mais meloso o que já era emocional por natureza.
Stone evita seus excessos típicos – mas isso não impede de, a certa altura, Jesus Cristo, em pessoa, se materializar no filme e trazer uma garrafa de água mineral consigo –, e também evita o que fez a sua fama. Fazer comentários políticos, por mais absurdos que fossem, sempre tirava seus trabalhos da vala comum. Aqui, ele se esquiva de realmente tomar algum partido, prefere deixar nas entrelinhas. E tudo acaba soterrado - como seus personagens centrais.
