03/06/2026

Em 1972, Julia (Dandara Guerra) e Snoopy (Rafael Rocha) se conhecem e apaixonam. Ela é uma jornalista que escreve sobre música, ele tenta a sorte com sua banda de rock. Sem se interessar nada por política, os dois embarcam numa paixão cheia de idas e vindas.

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A ditadura no Brasil tem servido como combustível para o cinema nos últimos anos. Os resultados são os mais díspares, com filmes bons (Cabra Cega e Quase Dois Irmãos) e pífios (O Que é Isso Companheiro e o recente Sonhos e Desejos). O que esses filmes têm em comum é que mostram a questão da resistência ao regime, são protagonizados por pessoas que fizeram oposição aos militares, seja ideologicamente ou mesmo a luta armada.

Já a comédia romântica 1972 tem o diferencial de falar exatamente da outra parcela da população jovem da época: os “alienados”, aqueles que queriam apenas viver a vida, sem se envolver com política ou questões sociais. Retratar essas pessoas não é problema – afinal esses jovens existiram e também podem ganhar as telas. A questão é como o longa de estréia do jornalista e diretor de videoclipes José Emílio Rondeau vê e mostra essas pessoas.

Os dois personagens centrais do filme são Julia (Dandara Guerra) e Snoopy (Rafael Rocha). Ela é uma jornalista especializada em rock, que está se frustrando num jornal empresarial. Ele, um jovem estudante que tenta a sorte montando uma banda com os amigos. A época são os loucos anos 70, quando o que imperava eram o sexo, as drogas e o rock ‘n roll. Mas na vida desses dois personagens, os dois primeiros são inexistentes.

Os dois se conhecem na porta do cinema quando iam ver um documentário dos Rolling Stones, mas a sessão é cancelada com a chegada da repressão militar. Snoopy salva a garota de quebra-quebra light com os milicos e fica encantado. Como Julia está começando numa revista da imprensa nanica especializada em música, vê no rapaz e na banda uma boa pauta.

Estão estabelecidos aí os elementos centrais de 1972, escrito pelo diretor e sua mulher, a jornalista Ana Maria Bahiana, que também assina a produção. Um romance entre dois jovens de mundos diferentes que, em comum, têm a mesma paixão, a música. Buscando uma classificação etária baixa (e conseguiu, a classificação é 10 anos) e assim levar o público jovem ao cinema, o longa é assexuado e há poucas referências às drogas. Tudo isso soa, no mínimo, inverossímil. Não faz muito sentido mostrar um bando de roqueiros e boêmios que, em plena revolução sexual, apenas trocam beijos.

Essa visão meio descompromissada que 1972 tem do mundo faz o filme soar como uma mistura de Malhação no cenário de Anos Rebeldes, com uma certa vontade de ser Quase Famosos – filme de Cameron Crowe sobre um adolescente que se torna jornalista e acompanha a turnê de uma banda de rock para a revista Rolling Stone. O roteiro, que tenta transitar entre o momento histórico e a vida pessoal dos personagens, nunca vai a fundo em nenhuma das questões, tornando tudo superficial demais.

Os personagens se manifestam através de clichês, assim como as imagens, com closes excessivos. Às vezes os atores parecem também não ter muita segurança sobre o assunto que falam. Numa das primeiras cenas, por exemplo, a jornalista Julia tenta vender uma pauta para sua editora durona e careta (Louise Cardoso), e tenta convencê-la fazendo uma ligação entre o novo trabalho de Rita Lee e a indústria fonográfica e eletrônica. Mas a atriz Dandara Guerra parece não ter muito conhecimento de causa e simplesmente declama seu texto sem muita convicção do que está falando.

O veterano Tony Tornado interpreta um personagem misterioso que depois revela seus verdadeiros interesses, numa entrada em cena que mais parece uma versão tupiniquim do Coronel Kurtz, de Apocalypse Now. É um personagem interessante, mas muito precariamente desenvolvido no roteiro, faltam-lhe matizes e densidade psicológica.

1972 é um daqueles filmes cheios de boas intenções e uma tentativa de ‘retrato carinhoso’ de uma parcela de uma geração. No entanto, o descompromisso com uma certa veracidade histórica faz a boa vontade do casal que assina a produção naufragar. Não existe problema em mostrar aquelas pessoas que vomitavam um colonialismo cultural, em plena época em que era muito mais interessante dar as costas para isso. Porém, até mesmo essas pessoas mereciam um retrato mais honesto.

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