Não é muita surpresa o prêmio ter ido para Infância Roubada, afinal, o filme tem muitas das características que costumam impressionar os votantes, como tema social e uma redenção. Nenhum desses fatores eleva o drama a um patamar mais alto – muito pelo contrário.
Infância Roubada é uma espécie de A Criança, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, às avessas. Um bebê aparece para mudar a vida do protagonista, David (Presley Chweneyagae), mais conhecido como Tsotsi, que significa ‘ladrão’, na linguagem do gueto. O jovem é o líder de uma gangue que tenta esquecer o seu passado. Por ter se tornado órfão muito cedo, o garoto teve de enfrentar uma série de problemas que o transformaram num fora-da-lei endurecido.
A sua relação com as outras pessoas, mesmo os membros de sua gangue, sempre é tensa. Tsotsi parece desprovido de sentimentos, é como um autômato preocupado apenas com a sua sobrevivência e em amedrontar os demais. Isso muda no momento em que atira em uma mulher e rouba um carro sem saber que há um bebê no banco de trás.
Essa nova figura será responsável por despertar novos sentimentos em Tsotsi. A vida do rapaz sempre foi construída em cima de medos e necessidades, o que o transformou numa pessoa violenta. A chegada da criança quebra esse ciclo – não porque o protagonista se regenere, mas porque não terá mais tempo para nada a não ser cuidar do bebê.
Infância Roubada é baseado num livro de Athol Fugard, já publicado no Brasil. A obra foi escrita na década de 1960 mas só foi publicada em 1980, quando a África do Sul ainda vivia sob o regime do apartheid. O filme mostra que muito pouca coisa mudou naquele país ao longo dessas últimas décadas.
No entanto, a forma ingênua com que se conduz Infância Roubada diminui a sua força. No filme, tudo se resolve muito facilmente, bem diferente da vida real, num contexto dramático como o desta história. No fim, segue-se apenas a batida fórmula sentimental de produtos hollywoodianos sobre personagens que encontram sua redenção.
