Nem tudo está tão bem assim na vida da família de classe média – meio decadente, mas tentando manter as aparências – que protagoniza o longa. O termo ‘tudo bem’ é tão falso quanto a estabilidade e o conforto da vida dessas pessoas. Morando num apartamento típico de classe média carioca dos anos 70, eles enfrentam os problemas da época, como a escassez de alimentos.
Ainda assim, a matriarca Elvira (vivida por Fernanda Montenegro) insiste em reformar o apartamento. A reforma trará para dentro daquele ambiente um pedaço do Brasil que a classe média insistia (ainda insiste) em ignorar. Passa a existir um conflito velado entre os segmentos da sociedade confinados àquele pequeno espaço, os donos, os pedreiros, os filhos dos donos, as empregadas. Cada um por si, atrás de seus interesses. Nada muito diferente do que vemos hoje.
Na época de seu lançamento, Tudo Bem teve uma boa acolhida. Glauber Rocha disse que "a Senzala invade a Casa Grande sob os olhos agitados da Varanda" e que o filme era"revolucionário na sua crueldade e justiça". Não por acaso, o longa é considerado uma mistura entre Cinema Novo (levando o povo às telas) e Nelson Rodrigues (as mazelas da classe média).
Jabor não mede esforços para mostrar que não está tudo bem por trás daquele verniz de classe média que cobre os personagens centrais, e vai sendo corroído à medida em que problemas sociais invadem o apartamento. Um dos pedreiros é nordestino e, depois de despejado, traz seus pais, mulher e filho recém-nascido para o local de trabalho, enquanto vai procurar ‘uma ponte para morar’. Elvira se sensibiliza e obriga que todos fiquem na casa dela até acharem um novo teto. Com a situação se prolongando, ela e o marido acabam pedindo ajuda ao síndico para ‘expulsar’ os migrantes. É a hipocrisia da caridade.
No elenco de Tudo Bem estão nomes agora famosos, mas na época quase desconhecidos. É o caso de Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães, que participavam do grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone. Também atuam José Dumont, Zezé Mota e Stênio Garcia.
Tudo Bem faz uma ponte entre passado e presente, do Brasil e do mundo. Os problemas quase não mudaram, a classe média continua a fingir que está tudo bem, os pobres ficam cada vez mais pobres, e os ricos, mais ricos. E agora, temos também a tal de globalização. E nem isso passa batido no filme de Jabor. Um certo personagem comenta algo sobre uma tal ‘aldeia global’ – sinal de que os ‘novos tempos’ não são tão novos assim.
