06/06/2026
Comédia

A Grande Final

Dia da final da Copa do Mundo de 2002, Brasil versus Alemanha. Nos cantos mais isolados do mundo, comunidades que não têm acesso a eletricidade se esforçam para encontrar um jeitinho de assistir ao jogo pela TV. Na fria Mongólia, no tórrido deserto africano do Níger e na selva amazônica brasileira, vale tudo para torcer.

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Há um gostinho especial para o público brasileiro nesta curiosa comédia ambientada em três cantos do mundo – Mongólia, o deserto africano do Níger e a selva amazônica brasileira – para contar a história de três comunidades distantes das grandes cidades que mobilizam toda sua energia apenas para um objetivo: assistir pela TV a grande final entre Brasil e Alemanha da Copa de 2002.

Em tempos em que a maioria da mídia massacra implacavelmente olhos e ouvidos sobre a uniformidade da propalada globalização, não deixa de ser curioso observar as diferenças culturais e lingüísticas que sobrevivem a este assédio, certamente por estarem fora de seu alcance. Por outro lado, a paixão pelo futebol em realidades tão distintas é o reconhecimento de que há algo que todo e qualquer ser humano pode entender, compartilhando emoções parecidas.

Sem maiores ambições, a proposta da história dirigida pelo documentarista espanhol Gerardo Olivares é a diversão, garantida pela série de rocambolescos incidentes que cada uma das comunidades retratadas encontra para realizar seu objetivo de assistir ao jogo pela televisão.

Nas montanhas Altai, na Mongólia, os inusitados torcedores são camponeses, cuja grande especialidade é caçar usando águias amestradas – cujos olhos são semi-vendados quando elas estão descansando do trabalho. No meio dos vastos planaltos cobertos de neve, a temperaturas baixíssimas, uma aldeia precisa superar o grande desafio da falta de fornecimento de eletricidade constante. Um problema que é agravado quando chega um comissário de polícia que proíbe a gambiarra feita por alguns homens num poste e os ameaça com multas impossíveis de pagar.

No deserto africano, onde viajam vários blocos de peregrinos, uns em camelos, outros amontoados num caminhão, as carências são parecidas. Existe um aparelho de TV, mas a bateria foi extraviada. A saída é convencer o motorista de caminhão a desviar-se da rota, para desespero das mulheres a bordo, atrasando sua chegada na cidade para uma paradinha num providencial poste no meio do nada que pode garantir a transmissão, sob o sol a pino e com areia entrando nos olhos.

Na selva brasileira, um grupo de índios Caiapó usa todos os expedientes para fazer funcionar uma antena parabólica no alto de uma árvore, situação que exige que um homem da tribo se sacrifique, segurando a antena numa determinada posição, para que o resto do grupo possa assistir. Ao final do primeiro tempo, outro o substitui na posição.

Para o público brasileiro, será divertido acompanhar as diferentes torcidas na final. A maioria dos mongóis prefere a vitória do Brasil, mesmo que o comissário de polícia, afinal convencido a trocar a multa por assistir ao jogo, insista que a Alemanha é melhor. No deserto, por mais que o dono da TV pressione os demais para que torçam pelos alemães, o sentimento geral é que se deve permanecer fiel a Ronaldinho. Na selva brasileira, claro, não há esse tipo de dúvida.

Outro detalhe que contribui para o tom zombeteiro do filme é observar as inúmeras mutretas de que cada comunidade, independente da cultura e da língua, lança mão para obter o que quer. E nós que pensávamos que o jeitinho era só um macete brasileiro.

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