Curta e média-metragista premiado por trabalhos como Caramujo-Flor (1988), Enigma de um Dia (1996) e Glauces - Estudo de um Rosto (2001), o cineasta carioca Joel Pizzini teve de esperar três anos pelo lançamento de seu primeiro longa, o documentário 500 Almas.
Vencedor de quatro prêmios técnicos (melhor fotografia, montagem, trilha sonora e som) no Festival de Brasília de 2004, o filme aborda a quase milagrosa redescoberta dos guatós, povo indígena do qual se tem notícias desde o século XVI na região do Pantanal. Mesmo assim, chegou a ser dado como extinto pela Funai na década de 1960. Isto se deveu em parte ao fato de os indígenas serem nômades, tendo mais capricho na feitura de suas eficientes canoas, escavadas de um único tronco de árvore, do que na de suas casas.
O principal motivo, porém, foi a dispersão dos índios a partir da segunda metade do século XX, devido a conflitos com brancos, como criadores de gado no Pantanal. O momento mais dramático foi o assassinato do líder Celso Guató, em 1982, quando lutava pela demarcação de uma reserva, na Ilha Ínsua, na fronteira com a Bolívia.
A partir de 1977, surgiram notícias de que este povo continuava a existir, mesmo que disperso. Graças especialmente ao trabalho de uma religiosa católica, a irmã Ada Gambarotto, foi possível identificar vários grupos no Mato Grosso do Sul. Vários deles são entrevistados no documentário, ainda que só os mais velhos ainda falem a língua nativa, que é estudada por uma lingüista (Adair Pimentel Palácio).
Fugindo a um formato didático, 500 Almas retrata a vida destes indígenas, que assumem diferentes graus de assimilação à civilização branca. Apesar disso, mantêm, todos, algum tipo de vínculo com sua cultura original. A maior comunidade vive na Ilha Ínsua, que foi demarcada como sua reserva depois de longa batalha jurídica.
Dá-se informações relevantes sobre a aparição dos guatós na História nacional, como quando foram retratados pelo pintor francês Hercule Florence, da expedição do embaixador russo, o barão de Langsdorff, no século XIX. Ou quando foram estudados, pela primeira vez a fundo, pelo etnólogo alemão Max Schmidt, no começo do século XX. O etnólogo levou grande quantidade de objetos feitos por eles ao Museu Etnográfico de Berlim, um dos locais visitados neste documentário.
As imagens de arquivo destes índios, porém, foram filmadas pelo marechal Cândido Rondon em suas expedições, também no começo do século passado.
Intercalando as belas imagens dos guatós em seu ambiente natural, coloca-se o ator Paulo José, funcionando como narrador e comentarista de sua longa e, por vezes, trágica trajetória. Ao lado de Matheus Nachtergaele, Paulo José encena um trecho da peça Controvérsia em Valladolid, do roteirista e dramaturgo francês Jean-Claude Carrière, que cedeu os direitos para uso neste filme. A peça se refere, justamente, à polêmica levantada no século XVI, sobre se os indígenas tinham alma ou não e faz uma dura crítica à violência do processo de colonização. Se o filme é um claro reflexo desta violência, não o é menos da calma e tenaz resistência deste povo. Há muito que aprender, ainda, sobre a importância dos indígenas na constituição do Brasil.
