A questão central, que amarra tudo em Conceição, é que tipo de filme deve se fazer. O que está por trás dessa indagação é para quem se faz cinema. São oito pessoas numa mesa de bar jogando idéias sobre o que devem levar para à tela, com resultados os mais variados. Um deles sugere um filme de perseguição, com um fugitivo (Augusto Madeira) que corre de um caçador (Jards Macalé) sem saber ao certo porquê, mas corre – por muito tempo e em diversos cenários.
Outro sugere algo que mais parece um drama, combinando violência urbana (uma garota que brinca com uma arma) e questões sociais (uma pedinte que aborda essa menina). Este segmento dentro de “Conceição” é repleto de uma dinâmica tensa entre a mulher e a criança, fazendo comentários sociais que lembram, muitas vezes, aqueles típicos de Sérgio Bianchi (Quanto Vale ou é Por Quilo?), mas aqui sem o mesmo tipo de cinismo.
Como todo bom filme fragmentado, Conceição cresce do diálogo entre seus segmentos e a narrativa que o sustenta. Cada parte fala de um gênero, de um estilo – no entanto, vão se encontrar quando os personagens saem da ficção, invadem a realidade, entram no bar e passam a cobrar mais de seus criadores, como a criatura se revoltando contra o criador.
Não bastasse toda esse diálogo, Conceição encontra espaço para outras pessoas se manifestarem, não apenas os cinco diretores do longa. São populares que dizem que filme fariam se tivessem essa chance. Uma constante nesses depoimentos é a busca de valores mais simples.
Uma senhora diz que os filmes nacionais só falam das “belezas da natureza e das favelas”. Ela faria um sobre a nossa cultura, pois ‘o Brasil é maravilhoso’. Já um músico gostaria de fazer um filme em que usasse poucos diálogos e mais música, pois esta “tem a ver com o diálogo do corpo”.
Enquanto isso, os autores na mesa do bar parecem pouco antenados com o que esse público espera do cinema. É exatamente essa a questão que ronda o cinema nacional atualmente: manter-se fiel à procura de um cinema de autor ou ‘vender-se’ ao gosto popular e conseguir um sucesso de bilheteria. Como a segunda opção sempre é um salto no escuro, os diretores de Conceição parecem manter-se fiéis àquilo que julgam ser cinema – por isso mesmo, o filme consegue ter personalidade.
