03/06/2026
Drama

Tropa de Elite

1997. Prepara-se uma nova visita do papa João Paulo II ao Brasil. Preocupados em "limpar" o Rio de Janeiro, as autoridades cariocas mandam o BOPE - Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio - descer o pesado braço nos morros. Quem comanda a operação, que tem carta branca para matar e torturar, é o capitão Nascimento (Wagner Moura).

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É chover no molhado dizer que este será o filme do ano. Já é. Independentemente de suas qualidades e defeitos, de um vazamento de milhares de cópias piratas que o tornaram objeto de discussões acaloradas pela imprensa, o filme de José Padilha já ganhou status de cult. Fica difícil abaixar a poeira para enxergar com serenidade aquilo que ele trata, ainda mais que sua chegada precipitada às salas de cinema só vai incendiar ainda mais a polêmica. Polêmica, aliás, que é bem real.

Há muitos temas dentro de Tropa de Elite, que se inspira, mas não é uma adaptação, no livro Elite da Tropa, de Rodrigo Pimentel (um dos roteiristas do filme), André Baptista (ex-integrantes do BOPE, o controverso Batalhão de Operações Especiais da PM carioca) e Luiz Eduardo Soares (ex-secretário da Segurança Pública do Rio). Violência policial, a criação de uma elite ainda mais violenta dentro do batalhão que sobe aos morros cariocas para enfrentar o tráfico, a conivência das ONGs com o tráfico para poderem instalar-se nas favelas e realizar um trabalho social, a conivência da classe média com a exploração brutal de crianças a partir do momento em que consome drogas no asfalto. Material explosivo, de algum modo já visitado pelo cinema brasileiro recente, em filmes como Cidade de Deus, Quase Dois Irmãos, É Proibido Proibir e o documentário Notícias de uma Guerra Particular, entre outros.

Então, qual o diferencial de Tropa de Elite? O ponto de vista do narrador, que é o da polícia. No caso, o capitão Nascimento (Wagner Moura, em desempenho arrepiante). Ele interpreta um policial que acredita no seu trabalho e que tem a chance de uma promoção, tornando-se comandante da tropa que sobe o morro e fica cara a cara com esta guerra que a maioria das pessoas fora dali só conhece pelos noticiários.

A fama do BOPE é tão sinistra quanto a dos comandos do tráfico. Quando o batalhão sobe, a polícia convencional sai. O BOPE só entra em ação para matar, como avisa seu macabro hino de guerra: : “Homem de preto, qual é a sua missão? É invadir favela, é deixar corpo no chão”. O treinamento de seus integrantes não fica atrás em sadismo, calcado possivelmente no dos fuzileiros navais norte-americanos.

As cenas de tortura não são menos contundentes, a mais comum sendo a do saco plástico – um quase sufocamente dos suspeitos, para que revelem os paradeiros de seus chefes, isto após espancamentos ferozes.

Tropa de Elite põe o dedo na ferida desta guerra com sede de adrenalina. Padilha, o premiado diretor do ótimo Ônibus 174, filma com o dedo no gatilho, na mesma velocidade que a descida do protagonista Nascimento ao inferno. Ele vai progressivamente perdendo o controle e o sono, consumindo remédios para contornar sua síndrome de pânico. Um processo semelhante de brutalização acaba por atingir seus subordinados, como os até então serenos Neto (Caio Junqueira) e André (André Ramiro).

Não há trégua, nem compaixão – por isso, alguns acusam o filme de falta de distanciamento crítico, de espaço para a reflexão. A idéia é não deixar o espectador respirar, levá-lo junto nessa viagem infernal, induzindo-o a reagir emocionalmente a essa paisagem devastada de ética para que depois ele se interrogue, como Nascimento – mas no que estamos todos nós nos transformando? Ponto para reflexão inclusive de quem, inadvertidamente ou não, aplaude as barbaridades que a polícia comete em nome da lei.

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