Dirigido por Marc Forster (A Última Ceia) a partir de um roteiro de David Benioff (Tróia), o filme reduz ao máximo da simplicidade as poucas nuances existentes no livro original, apesar de manter o moral da história - não importa o que a pessoa faça no passado, sempre há uma segunda chance. Porém, o diretor e o roteirista parecem não estar muito interessados em algo que vá além do drama humano dos personagens, calculado para arrancar lágrimas.
As informações que o romance trazia sobre a cultura e a política afegã praticamente não existem no filme, que tenta se sustentar nos ombros frágeis de duas crianças que não são atores profissionais. Forster, aqui, tem um mão pesada, procurando com que cada cena seja responsável por causar um ‘grande impacto’ – ainda mais forçado pelo uso onipresente da trilha de Alberto Iglesias (Volver).
Quem tem uma segunda chance para reparar seus erros do passado é o protagonista Amir (Khalid Abdalla, de Vôo United 93), um afegão que fugiu do país ao lado do pai (Homayoun Ershadi, de O Gosto da Cereja) no final dos anos de 1970, quando o Afeganistão foi invadido pela Rússia, e mora nos Estados Unidos há mais de duas décadas. Um telefonema de um amigo, que fugiu para o Paquistão, o faz lembrar de sua infância em Cabul.
Amir (interpretado por Zekeria Ebrahimi, num longo flashback) cresceu ao lado de Hassan (Ahmad Khan Mahmidzada), filho do empregado da casa. Os dois são amigos, apesar de pertencerem a grupos étnicos diferentes e do forte preconceito que impera na sociedade local. Um dos passatempos preferidos dos garotos é empinar pipas. Amir é o dono do brinquedo, mas é Hassan quem deve correr atrás de um papagaio quando o amigo consegue cortá-lo.
O grande trauma da infância de Amir, que o persegue a vida toda, foi não ter ajudado Hassan num momento de grande dificuldade. Isso causou a separação dos amigos, que nunca mais se viram. Agora, anos depois, surge a chance de reparar o seu erro e ficar bem consigo mesmo.
Se há algum debate político em O Caçador de Pipas este é resumido na pergunta de Amir, ao chegar no Paquistão, em meados de 2001: “Os Talibans são tão maus quanto dizem por aí?”. Ingenuidade à parte, esse é um forte indício de como ideologias e posições são pasteurizadas em personagens bons e maus.
Forster dirige o longa com profissionalismo o que significa dizer que não imprime muita emoção – o que há de emotivo vem da história e não das imagens. Também não lida muito bem com as atores que não têm formação profissional. Eles são engraçadinhos porque são crianças, e não porque estão atuando, faltando-lhes veracidade diante da câmera.
A estréia do filme foi adiada em algumas semanas para evitar que os jovens afegãos sofressem algum tipo de represália por colegas na escola por participarem de cenas de violência. O longa concorreu no Globo de Ouro em duas categorias: filme em língua estrangeira e trilha sonora.
No Afeganistão, O Caçador de Pipas foi proibido, pois segundo, Latif Ahmad, diretor de uma estatal que distribui filmes, “algumas cenas iriam incomodar os afegãos”. Já a empresa americana que produziu o filme, disse à revista Variety que, em momento algum, cogitaram um lançamento no país. Ainda assim, acredita-se que o longa chegará em cópias piratas, pouco depois de ser lançado na Índia.
Com a sua conclusão, O Caçador de Pipas levanta algumas questões: não existem mais esperanças para quem mora no Afeganistão? Ou mesmo no Paquistão, que seja? É preciso emigrar e, conseqüentemente, abrir mão de sua identidade – porque Amir mais parece um norte-americano – e deixar que seu país seja destruído? A dor de Amir, por sua vez, mais parece decorrente do peso da moral ocidental do que da traição que fez no passado. Ele sofre por si mesmo por ter abandonado o seu amigo quando mais precisou dele? Ou pelas crianças de Cabul que ele vê nas ruas numa cidade tomada pelo Taliban? São perguntas que não terão resposta no filme, afinal, Forster e companhia transformaram questões políticas em diversão ao melhor estilo norte-americano, com o bem sempre vencendo no final.
