Volta à cena o famoso personagem criado pelo diretor. Josefel Zanatas, nome verdadeiro do ex-agente funerário que se tornou popularmente conhecido como Zé do Caixão. Na história, ele passou 40 anos recluso entre um manicômio e a penitenciária depois de cometer diversos crimes em busca da mulher ideal para gerar o filho perfeito – tema de seus filmes anteriores, À Meia-Noite Levarei Tua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), ambos disponíveis em DVD.
De volta à ativa, Zé conta com a ajuda do corcunda Bruno (Rui Resende) para conseguir pessoas dispostas a ajudá-lo em sua incansável missão. Alguns jovens destemidos passam no teste e começam seu treinamento. E o coveiro se instala numa favela na periferia de São Paulo, onde é malvisto pelos moradores, que acreditam que ele traz má sorte.
O homem das unhas gigantes também terá de enfrentar dois policiais (Adriano Stuart e Jece Valadão, em seu último filme) que o juram de morte. Além de um monge fanático, interpretado por Milhem Cortaz, que pretende acabar com o coveiro por motivos bem pessoais.
Quem conhece os outros filmes de Mojica, poderá estranhar a qualidade da produção desta nova empreitada – assinada por Paulo Sacramento (que também é o seu montador) e os irmãos Caio e Fabiano Gullane. Desde a fotografia, de José Roberto Eliezer, até os poucos efeitos especiais (por opção do diretor) são bem-cuidados. O mesmo acontece com a trilha, de André Abujamra.
Esse apuro técnico não intimidou o criador do Zé do Caixão, que mantém sua marca registrada num filme cheio de sangue, torturas, mortes tenebrosas, mulheres nuas e bichos nojentos.
A grande questão é se Encarnação do Demônio vai encontrar um diálogo com o público 40 anos depois do lançamento do segundo filme da trilogia que só agora se conclui. É possível que sim, afinal, este longa não deixa nada a dever ao cinema de terror contemporâneo, calcado em sangue jorrando e sadismo, como a série Jogos Mortais, que caminha para o quinto episódio.
Quem assiste a um filme de Zé do Caixão sabe, ou deveria desconfiar, o que esperar. É quase um gênero à parte, que dialoga com os primórdios do horror, como os filmes de monstro protagonizados por Bela Lugosi e Boris Karloff e o expressionismo alemão, com seus jogos de sombras e personagens de personalidades deformadas.
Se o resultado vai agradar ou não ao público brasileiro, será descoberto nas próximas semanas. Mas a comissão de seleção do Festival de Veneza já achou atrativos em Encarnação do Demônio. Tanto que o longa foi programado para uma das sessões à meia-noite do festival, que começa no dia 27 de agosto. E Mojica já anunciou que estará lá com o figurino completo – inclusive suas famosas unhas.
