Não é comum, no Brasil ou em nenhuma outra parte do mundo, que um cineasta retome um assunto de que tratou há 50 anos atrás e tenha a oportunidade de lançar um olhar novo a uma mesma situação, praticamente na mesma região do primeiro filme.
É isso, no entanto, que acontece em O Retorno, documentário que marca a volta à direção, depois de 26 anos (seu trabalho anterior fora Cordélia, Cordélia, de 1971), do veterano cineasta independente paulista Rodolfo Nanni. Aos 83 anos, Nanni (diretor do pioneiro O Saci, 1951) aproveita esta oportunidade rara, retoma o universo de O Drama das Secas (1958) e atualiza o retrato de uma região que não cessa de oferecer material para debate em torno de desigualdades extremas, especialmente em função do fenômeno das secas.
Optando por localizar seu foco na situação dos pequenos lavradores nordestinos, no interior e nas imediações de cidades como Garanhuns, Águas Belas, Itaíba, Manari, Tanacaru, Serra Talhada, Pesqueira, entre outras, o diretor encontra um Brasil modificado pela introdução do Bolsa-Família – que é mencionado em diversos depoimentos ao longo do filme. Ao mesmo tempo, este benefício mostra, igualmente, suas limitações. A maior delas, não ter o poder de reverter o efeito devastador da seca nas vidas destes pequenos lavradores.
Nestas regiões, muitas vezes se conta com açudes, não raro imensos. A água, porém, continua, como há 50 anos, não chegando às suas pequenas propriedades. Falta ainda, como faltava há cinco décadas, um projeto consistente e amplo de irrigação. Para muitos dos personagens do documentário, continua havendo a necessidade imperiosa de buscar longe a água de cada dia, na mesma cacimba ou lata, carregada à cabeça, que já virou samba mas não ainda página virada de nossa história.
Coincidindo com essa dificuldade de acesso à água, exibe-se, também a continuidade da crônica ausência no oferecimento de uma educação ampla e geral, esta sim com potencial de mudar drasticamente as expectativas de vida destas populações. Se é inegável que o Bolsa-Família moderou significativamente os efeitos da fome e da desnutrição, nem este programa, nem nenhum outro ainda, serviu ainda para elevar os níveis educacionais e profissionais destas populações.
A fotografia de Roberto Santos Filho, premiada no Cine PE 2008, ao lado da direção de Nanni, oferece seqüências de inegável beleza, sem recorrer a artifícios. Sob uma luz tantas vezes ofuscante, este sertão é belo, apesar de todas as dificuldades que ali se mantêm.
Um ponto alto está na trilha sonora, cuidadosamente pesquisada pela cantora e pesquisadora Anna Maria Kieffer, com a parceria do também pesquisador Gilmar de Carvalho. Partindo da inspiração de cantigas de fonte de matriz ibérica que espelham a água como metáfora da vida, ela constrói uma sofisticada moldura sonora, recorrendo também a sons de instrumentos locais, tais como pífanos, violas de arame, vozes e percussão. Tudo isso confere uma identidade regional e poética a este filme de irresistível honestidade. Além de ser um diálogo necessário com o tempo.
