27/08/2026
Drama

K-19: The Widowmaker

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O sofista, segundo Platão, cria representações falsas apoiadas nos desejos alheios e as transforma no modelo que aceitamos como verdade. George W. Bush e a caça aos terroristas no Afeganistão é prova de que os americanos gostam de acreditar que formam a polícia do mundo. E Hollywood faz uso desse heroísmo todo para movimentar a indústria do cinema, na qual os Estados Unidos sempre acabam salvando o mundo.

Até aí, nada de novo. Mas, e se os heróis de um filme americano forem os russos? Não há outra explicação que não o surto coletivo de todos os produtores hollywoodianos, que resolveram subverter o status quo em prol de algo definitivamente indecifrável. Harrison Ford, em K-19: The Widowmaker, de Kathryn Bigelow, vestindo farda do exército comunista e acenando para as crianças em Leningrado seria, então, o atestado dessa suposta insanidade.

Ford interpreta o comandante Alexei Vostrikov, um linha dura designado ao comando da primeira viagem do submarino soviético nuclear construído em 1961. Peça chave na estratégia de defesa da URSS contra os Estados Unidos, o submarino, no entanto, não apresenta funcionamento perfeito, mas ainda assim o alto comando decide lançá-lo ao mar, depois de destituir do comando Dimitri Nevsky (Sam Spruell), que passa a acatar as ordens de Vostrikov.

O novo comandante testa duramente os limites do submarino e leva a tripulação à exaustão, até que os exercícios dão lugar a uma falha real no funcionamento do reator nuclear que, se não for sanada, pode levar ao início da Terceira Guerra Mundial.

Depois de meia hora de filme, o fato dos soviéticos falarem inglês e os momentos sentimentalóides entre nanômetros e léguas submarinas tornam-se secundários e cedem lugar a uma curiosidade crescente que não nos permite deixar a poltrona do cinema até que o enigma seja desvendado.

Apenas ao final da projeção, comprovamos que os soviéticos podiam ser bonzinhos sim e, mais que isso, podiam ser tão heróis quanto Will Smith emIndependence Day ou Mel Gibson em O Patriota. Mas como nem tudo são flores, K-19 usa os heróis que deram suas vidas à URSS para atestar a irresponsabilidade, a intransigência e a falta de preocupação com os oficiais demonstrada pelo alto escalão do Partido Comunista, além, é claro, de frisar que os americanos estão sempre a postos para oferecer ajuda a qualquer um que necessitar, mesmo seus arquiinimigos da Guerra Fria.

Cineweb-30/8/2002

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