18/08/2026
Comédia

O Amor é Cego

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Dentro da enorme biodiversidade que caracteriza a comédia americana, há lugar ao sol para todos. Assim, sobrevivem em Hollywood desde estetas dos diálogos elaborados e cínicos diante da vida, como Woody Allen, criadores da sátira comportamental com um olho na política, como Robert Altman, até seguidores do humor mais escrachado e politicamente incorreto possível - posto ocupado pelos irmãos Peter e Bobby Farrelly.

Irreverentes quarentões, os Farrelly têm uma visão moleque da vida e do humor, o que faz a delícia das enormes platéias adolescentes, de corpo ou espírito, que costumam prestigiar seu trabalho, não raro com bilheterias que superam os US$ 100 milhões de dólares - caso de seu primeiro filme, Débi & Lóide (94), com Jim Carrey à frente do elenco, e Quem Vai Ficar com Mary? (98), que popularizou Cameron Díaz.

Pode-se adorar ou detestar o tipo de humor grosseiro e inapelavelmente provocativo dos dois irmãos, diretores e roteiristas, mas uma coisa é certa: ao menos, é possível simpatizar com sua aversão à violência explícita e a total ausência de intenções de ofender qualquer um. Quem quiser sofisticação e temas adultos, é claro que deve procurá-los em outra parte.

Definidas as regras do jogo, pode-se esperar tudo, menos sutileza de O Amor é Cego, a mais recente travessura da dupla. A história parte de um jovem, Hal (Jack Black, de Alta Fidelidade), obcecado por encontrar namoradas bonitas, por mais que ele mesmo não seja nenhum Tom Cruise. Baixinho, gordinho e especialmente importuno, ele vive incomodando as garotas na rua e em festas com seus métodos de paquera mais do que inconvenientes. Ao seu lado, faz a mesma triste figura o amigo Mauricio (Jason Alexander, o George da série Seinfeld), que ainda por cima ostenta uma ridícula peruca para esconder - mal - a adiantada calvície.

Parece mais com um castigo que o fútil Hal fique um dia preso num elevador com um guru de auto-ajuda, Tony Robbins (aliás, um guru real que usa o seu próprio nome), e este não encontre forma melhor de ajudá-lo do que fazendo uma espécie de reprogramação mental que levará o jovem a enxergar todas as feias como se bonitas fossem. Mas é assim que acontece. Para desespero de seu amigo Mauricio, Hal passa a namorar as maiores mocréias porque só vê sua beleza interior. E acaba se apaixonando pela obesa Rosemary, que ele enxerga, porém, por trás da aparência de sílfide de Gwyneth Paltrow.

Não deixa de ser positivo que alguém ironize a verdadeira obsessão pela boa forma que enlouquece tantas pessoas ao redor de todo o mundo. Os irmãos Farrelly, entretanto, negam ter procurado passar qualquer mensagem. Querem fazer graça no limite da grossura e do mau-gosto, como sempre, o que lhes valeu reclamações por parte das sempre vigilantes associações de gordos americanos, que não gostaram muito do retrato que a comédia compôs de suas aflições ao sentar em bancos de lanchonetes e restaurantes e mergulhos em piscinas, para ficar em poucos exemplos.

As piadas mais provocativas, porém, envolvem deficientes físicos que, aliás, fazem seus próprios papéis. Quem decidir assistir ao filme, deve ir preparado para tudo. Afinal, todo mundo sabe o que esperar da grife Farrelly. Resta saber até quando eles terão fôlego para prosseguir no gênero e evitar os perigos de cair na repetição de uma fórmula.

Cineweb-15/2/2002

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