Embora a paixão entre os dois nunca tenha se consumado, devido a uma vacilação que Baptiste sempre lamentará, ele mesmo vive obcecado pela lembrança de Garance - cuja volta ignora. Não o demovem deste arrependimento pelo amor perdido nem mesmo o sucesso no palco nem a estabilidade de seu casamento ao lado de Natalie (Maria Casarès), que lhe deu um filho.
Esta dolorida trama de amores contrariados será empurrada ao seu limite pela participação justamente dos personagens secundários, ou seja, o conde que protege Garance, o criminoso Lacenaire (Marcel Herrand) e o ator Frédérick Lemaître (Pierre Brasseur) - todos eles irresistivelmente atraídos pela fatal Garance, sempre ela.
No esplendor da beleza aos 47 anos, a atriz Arletty compõe com segurança esse papel central de uma heroína capaz de combinar em doses exatas uma sensualidade exuberante, uma amoralidade em que não cabe uma centelha de fidelidade - uma ousadia para a época da produção - e, ainda assim, encontra espaço num coração sensível, apesar de tudo, para um grande e irredimível amor verdadeiro, no sentido mais romântico que a literatura reservou à palavra. Sem sua grande atuação, não se sustentaria o centro nevrálgico do filme.
Em que pese ter seu núcleo neste romance, o filme equilibra-se numa riqueza de detalhes cuja descrição seria inesgotável. Como uma joalheria de filigrana, a história celebra uma paixão explícita, também, pela arte da representação em todas as suas formas. Reserva, por isso, grandes interpretações-solo para todos os seus atores. Brasseur, na pele do ator Lemaître, mostra sua vasta gama de recursos dramáticos quando improvisa a rocambolesca comédia "L 'Auberge des Adrets", levando todo o público de seu teatro a morrer de rir de suas improvisações, para grande desgosto dos autores, vaidosos de seu texto medíocre a ponto de desafiarem em duelo o ator rebelde - que se safa da encrenca apenas levemente ferido.
O criminoso Lacenaire, por sua vez, mostra sua natureza perversa e sem remorsos em seus enfrentamentos com o conde e com o próprio Lemaître - quando este resolve encenar o "Otelo", de Shakespeare, para exorcizar seu próprio ciúme de Garance. Finalmente, Baptiste mostra o melhor de seu personagem trágico num espetáculo de mímica e nos diálogos cruciais com as duas mulheres de sua vida.
Dilemas humanos, os de todos eles, em que não cabe uma simplificação adocicada, como aquela a que Hollywood viciou o grande público a esperar de toda e qualquer história. Um hábito que vale a pena o espectador romper. Afinal, assistir a um filme como estes, uma jóia de outros tempos, na tela grande do cinema e em cópia nova, será sempre um privilégio raro e imperdível, que seria uma pena se fosse visitado apenas pelos persistentes fãs dos clássicos.
