Cansado de sua confortável e previsível vida burguesa, o professor de espanhol Ferdinand Griffon (Jean-Paul Belmondo) abandona a mulher e os filhos e foge com Marianne (Anna Karina), com quem teve um caso cinco anos antes. Depois que um corpo é encontrado no apartamento dela, o casal ruma em direção ao sul da França, fazendo dos roubos meio de vida.
Lançado em 1965, o filme de Jean-Luc Godard golpeou os defensores do classicismo, agitando as salas em que foi exibido. Tendo como ponto de partida a metalinguagem, recurso do qual o franco-suíço parece ser devoto até hoje, a fita exibe inúmeros desafios lingüísticos, mas é na estrutura que se nota a maior ruptura com o modelo cinematográfico tradicional.
Godard já tinha usado técnicas inovadoras em seu primeiro longa, Acossado (1959), recebido como verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague. Aqui, ele também não procura ocultar a existência da estrutura cinematográfica, característica do cinema clássico que faz da câmera os olhos do espectador e o lança dentro da história sem que ele se dê conta. A decupagem e a montagem de O Demônio das Onze Horas destroem o estilo invisível e objetivo. Ao deixar que personagens falem diretamente para a câmera ou focando a reação daquele que apenas escuta em um diálogo, o diretor abdica notoriamente da triangulação clássica das câmeras, que contextualiza o ambiente, filmando os dois envolvidos e alternando as imagens à medida que falam.
Em um dado momento, algumas pessoas que fazem uma pequena participação no filme contam suas vidas olhando para a câmera. O último deles diz: "Eu sobrevivo fazendo pontas no cinema". Godard parece querer acordar seu espectador alertando-o para o fato de que aquilo que ele está vendo é falso. Para isso usa ironias do tipo "essa explosão tem que parecer real, isso não é cinema".
Uma outra característica do filme são as incursões populares. Marianne evoca a alma de pastelão de O Gordo e o Magro para enganar e assim esmurrar um frentista, cena sucedida por uma patética luta entre o atrapalhado Ferdinand e um outro atendente do posto de gasolina. No entanto, a maior evocação popular está na revista L'Épatant, que publicava tiras dos adorados Les Pieds Nikelés, desenhados pelo pioneiro das histórias ilustradas na França, Louis Forton, e sucesso a partir do final da primeira década do século passado.
O título original é Pierrot Le Fou (pierrô maluco), modo impertinente pelo qual Marianne chama o amante, fazendo refência ao ingênuo e sentimental personagem da comédia italiana que, mais tarde, foi transportado para o teatro francês e para o da pantomima. Entretanto, quem se diz sentimental é a moça que, segundo Ferdinand, é uma típica personagem hollywoodiana que adora se ver às voltas com o perigo e só a isso chama de viver.
As costumeiras farpas lançadas pelo diretor contra os Estados Unidos são também bastante saborosas. Outro componente importante na trama é a música que ironiza os filmes musicais em seqüências como a de um traficante de armas que aparece dançando e contagia os protagonistas. As repetições também são evidentemente refências ao modelo clássico de explicação detalhada da trama. Em suma, Godard descontrói tudo que o cinema representava até então criando um filme inspirador. "A linguagem poética surge das ruínas", nos ensina pela boca de um de seus personagens.
Cineweb-10/5/2002
