03/06/2026
Comédia dramática

Seduzida e abandonada

Matilde é noiva há tempos de Peppino, que está de olho na bela irmã caçula dela, Agnese. Numa tarde em que todos dormem a sesta, Peppino dá o bote sobre Agnese. A história rende um escândalo e a mobilização total do pai das duas, don Vincenzo, para resolver o impasse, poupando a família de um escândalo na cidadezinha siciliana.

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A ironia começa no título – Seduzida e Abandonada – que, não obstante descrever à perfeição o centro melodramático do grande filme de Pietro Germi, busca, mais do que isso, levantar a cortina de um mundo arcaico, patriarcal e profundamente machista e hipócrita.
 
Diretor que militou no despojamento do neorrealismo e que achava que os seus melhores trabalhos vinham desta escola – caso, em sua própria opinião, de O Ferroviário (56) e O Homem de Palha (57) -, Germi obteve seus maiores sucessos, porém, em comédias, não por acaso, na Sicília (nada pessoal, embora ele fosse genovês e amasse a Sicília).
 
A ensolarada porção meridional da Itália é o ambiente desta história roteirizada pelo próprio Germi, ao lado de Agenore Incrocci, Furio Scarpelli e Luciano Vincenzoni. A protagonista é a jovem Agnese (Stefania Sandrelli), jovem estudante do clã Ascalone que é seduzida pelo noivo da irmã, Peppino (Lando Buzzanca), numa tarde em que toda a família dormia a habitual sesta.
 
Desde o primeiro instante em que se descobre o incidente, o esforço maior do patriarca, Don Vincenzo Ascalone (Saro Urzì, premiado como melhor ator em Cannes) é abafar o escândalo, pressionando Peppino e seus pais a casarem com Agnese. Ao mesmo tempo, procura solucionar o problema de Matilde (Paola Biggio), que perdeu este noivo e precisa de outro.
 
No desenrolar da trama, Germi evidencia os mecanismos de uma sociedade onde o que mais importa não é realmente a honra – pois mantém um conceito distorcido dela – e sim a manutenção das aparências. Não importa o que tenha acontecido, que haja ou não um culpado, que os envolvidos queiram ou não casar. O fundamental é que haja um ajuste do “prejuízo”, já que mulheres são vistas como mercadorias frágeis, cujo maior valor de mercado, naquele contexto, é a virgindade.
 
A solução se complica e demora. Mesmo tendo forçado a investida sobre Agnese, Peppino se justifica com a falsa moral vigente: “O dever do homem é tentar, o da mulher, recusar”. Mais cínica ainda é sua negativa inicial de casar-se, alegando que tem direito a uma noiva “honrada”, ainda que tenha sido ele o responsável pela desonra.
 
Don Vincenzo, certamente, não é homem a quem se diz não e multiplica sua pressão, por bem e por mal, sobre Peppino e seus pais. Enquanto isso, encaminha um novo noivo para Matilde, encontrado na figura patética de um barão arruinado (Leopoldo Trieste), que não tem de seu mais do que um castelo arruinado, do qual já vendeu toda a mobília. Nem mesmo tem todos os dentes o nobre decadente, mas sem marido Matilde não pode ficar.
 
De imbróglio em imbróglio, a história se complica cada vez mais, com o envolvimento da justiça e da polícia que, afinal, não são instâncias neutras, muito menos alheias aos costumes e valores locais.
 
Ainda que falando de coisas sérias, Seduzida e Abandonada nunca perde de vista seu lado cômico. Há sequências impagáveis, como as brigas na família Ascalone e um falso rapto. Mas é o tipo de comédia com substância, que não se coloca acima dos personagens. É tudo muito humano, profundamente humano.
 
O grande crítico Tullio Kezich foi o autor de uma das grandes definições deste filme: “Parece uma peça de George Bernard Shaw ilustrada por Buñuel”.
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