Paixões exasperadas entre quatro paredes foram uma das matérias-primas que inspiraram o cineasta e roteirista italiano Luchino Visconti (1906-1976) na criação de algumas de suas melhores histórias. Na boa companhia de Suso Cechi d’Amico e Enrico Medioli, ele escreveu o tenso e envolvente enredo de Vagas Estrelas da Ursa, seu terceiro trabalho com a atriz Claudia Cardinale (Rocco e seus Irmãos, O Leopardo).
Como sempre, há um perfume literário na história, desde o título que remete a um poema de Giacomo Leopardi (Le Ricordanze). Como na melhor literatura, as relações entre os personagens se manifestam em transbordamentos intensos. A volta de Sandra (Claudia Cardinale) ao lar paterno, em Volterra, desencadeia o recomeço de uma fagulha há muito sufocada, um segredo enterrado no passado. A família, como de hábito em Visconti, é disfuncional, o que é nítido a partir da arquitetura e decoração do mausoléu do clã Luzzati.
Longos corredores, quartos que há anos não se abrem, objetos antigos e empoeirados, dispostos como num museu de emoções reprimidas. É a este ambiente que volta Sandra, trazendo o marido, Andrew (Michael Craig). A ocasião é a inauguração de uma estátua para seu pai, vítima do Holocausto, e cuja morte está no centro de um conflito de Sandra com a mãe (Marie Bell) e o padrasto, o advogado Gilardini (Renzo Ricci).
O irmão, Gianni (Jean Sorel), reaparece na casa, que frequenta como um fantasma predador – em dificuldades financeiras, ele faz vende seus objetos de valor. Com um comportamente instável e infantilizado, Gianni torna-se o elemento catalisador do desmonte do frágil equilíbrio que sustentava a vida de Sandra à distância. Uma vez reinstalada na província, histórias há muito sufocadas e proibidas vêm à tona.
O desconforto é tratado com uma maturidade admirável, sem excessos nem viés moralista, raro de se ver em filmes sobre os mesmos temas hoje em dia. Há uma evolução equilibrada da tensão, declarando-se os termos do conflito, dando oportunidade a que os vários jogadores movam suas peças, declarem seus sentimentos e se mostrem humanos, apenas humanos.
Claudia Cardinale, particularmente, mostra-se uma heroína ambígua mas forte diante de toda a situação – ela não quer simplesmente escapar do passado complicado retirando-se de cena com o marido. Ela nada perdoa, nada esquece e mostra-se, afirmando uma personagem feminina marcante como várias da filmografia de Visconti, digna e desafiante, como heroína de tragédia grega (uma referência que é lembrada igualmente na maquiagem da atriz e na iluminação dos cenários, um belo jogo de luzes e sombras). A elegância com que o diretor filma a decadência é um de seus marcos mais admiráveis, num filme que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza.
