04/06/2026
Drama

Vagas Estrelas da Ursa

Há muitos anos Sandra vive fora de sua terra natal, Volterra. Casada com Andrew, ela volta com ele para uma homenagem ao pai, morto na II Guerra. Reencontrando a mãe, o padrasto e o irmão, Gianni, ela enfrenta a revelação de um segredo oculto no passado familiar.

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Paixões exasperadas entre quatro paredes foram uma das matérias-primas que inspiraram o cineasta e roteirista italiano Luchino Visconti (1906-1976) na criação de algumas de suas melhores histórias. Na boa companhia de Suso Cechi d’Amico e Enrico Medioli, ele escreveu o tenso e envolvente enredo de Vagas Estrelas da Ursa, seu terceiro trabalho com a atriz Claudia Cardinale (Rocco e seus Irmãos, O Leopardo).
 
Como sempre, há um perfume literário na história, desde o título que remete a um poema de Giacomo Leopardi (Le Ricordanze). Como na melhor literatura, as relações entre os personagens se manifestam em transbordamentos intensos. A volta de Sandra (Claudia Cardinale) ao lar paterno, em Volterra, desencadeia o recomeço de uma fagulha há muito sufocada, um segredo enterrado no passado. A família, como de hábito em Visconti, é disfuncional, o que é nítido a partir da arquitetura e decoração do mausoléu do clã Luzzati.
 
Longos corredores, quartos que há anos não se abrem, objetos antigos e empoeirados, dispostos como num museu de emoções reprimidas. É a este ambiente que volta Sandra, trazendo o marido, Andrew (Michael Craig). A ocasião é a inauguração de uma estátua para seu pai, vítima do Holocausto, e cuja morte está no centro de um conflito de Sandra com a mãe (Marie Bell) e o padrasto, o advogado Gilardini (Renzo Ricci).
 
O irmão, Gianni (Jean Sorel), reaparece na casa, que frequenta como um fantasma predador – em dificuldades financeiras, ele faz vende seus objetos de valor. Com um comportamente instável e infantilizado, Gianni torna-se o elemento catalisador do desmonte do frágil equilíbrio que sustentava a vida de Sandra à distância. Uma vez reinstalada na província, histórias há muito sufocadas e proibidas vêm à tona.
 
O desconforto é tratado com uma maturidade admirável, sem excessos nem viés moralista, raro de se ver em filmes sobre os mesmos temas hoje em dia. Há uma evolução equilibrada da tensão, declarando-se os termos do conflito, dando oportunidade a que os vários jogadores movam suas peças, declarem seus sentimentos e se mostrem humanos, apenas humanos.
 
Claudia Cardinale, particularmente, mostra-se uma heroína ambígua mas forte diante de toda a situação – ela não quer simplesmente escapar do passado complicado retirando-se de cena com o marido. Ela nada perdoa, nada esquece e mostra-se, afirmando uma personagem feminina marcante como várias da filmografia de Visconti, digna e desafiante, como heroína de tragédia grega (uma referência que é lembrada igualmente na maquiagem da atriz e na iluminação dos cenários, um belo jogo de luzes e sombras). A elegância com que o diretor filma a decadência é um de seus marcos mais admiráveis, num filme que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza.
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