Fred (Ton Kas) poderia escrever um manual do solitário. Afinal, desde a morte da mulher, ele se especializou em encher suas muitas horas sozinho de uma rotina plena de tarefas, cumpridas meticulosamente, que ocupam sua mente e energia. Sua casa é um brinco, sempre arrumada, impecável. Quando sobra tempo livre, ele o passa nos cultos na igreja, que fica a poucos metros de sua casa.
À primeira vista, se poderia até pensar que Fred está envolvido num projeto de santidade. Nada como a chegada de um estranho, Theo (René van’t Hof) para testar os limites de tanto apego à ordem.
Theo, para começar, não tem nada de organizado. É um sem-teto com algum tipo indefinido de problema mental, cuja mera aparição, na vizinhança classe média, é um tumulto. Por isso, ele é rejeitado, até hostilizado, a princípio. Mas o próprio Fred acaba se compadecendo e acolhe Theo em sua casa.
O diretor e roteirista holandês, o estreante Diedrik Ebbinge, tira bom partido de sua ótima dupla de atores, escrevendo cenas do mais puro cinema mudo. Já que Theo não consegue comunicar-se verbalmente, soltando uma linguagem incompreensível sempre que o tenta, a saída é Fred criar formas gestuais de entendimento, nem sempre com sucesso.
Do choque de realidades bem distintas, nascem situações tragicômicas, que encaminham o verdadeiro tema – a tolerância com o diferente e a inevitabilidade da surpresa na dinâmica da vida. Tudo isso sem discursinho politicamente correto, de forma bem natural e espontânea. Por isso, especialmente, pode-se simpatizar sem culpa com este filme, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2013.
