16/06/2026
Drama

Uma Questão de Família

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As obras de William Shakespeare (1564-1616) já serviram de inspiração para inúmeros cineastas, principalmente Rei Lear. Akira Kurosawa (1910-1998) talvez tenha feito o melhor uso de cada detalhe sobre esta dissecação da pobreza da alma humana diante da possibilidade de atingir o poder, no épico Ran. Mas o co-roteirista e diretor Don Boyd, consegue transplantar, com competência e ousadia, o drama para a Liverpool atual, utilizando os vários tons de cinza e a incessante chuva da cidade para lacerar cada fibra de um poder paterno, baseado na arrogância e no autoritarismo.

Sandeman (Richard Harris) é o todo-poderoso chefão do crime de Liverpool, onde chegou criança e paupérrimo. Com o controle total do submundo, mantém suas relações familiares com a mesma mão pesada das ruas. Apoiado nas atitudes serenas da mulher Marion (Lynn Redgrave), prefere um jogo de cartas a conversar com as filhas. O único a quem permite afeto verdadeiro é o neto (Reece Noi). O mundo de Sandeman vêm abaixo quando sua mulher é morta durante um assalto na rua, quando o casal volta de um concerto caminhando pelas ruas escuras da cidade.

Desesperado e apático, o velho gângster decide dividir sua fortuna entre as três filhas e se dedicar à aposentadoria. Começa aí o desmoronamento do império. A recusa de Jo (Emma Catherwood), a mais jovem e favorita do pai, em participar deste mundo que tanto odeia, coloca nas mãos de Kath (Louise Lombard), gerente de um bordel, e de Tracy (Lorraine Pilkington), dona de um time de futebol, todo o dinheiro e poder com que elas sempre sonharam. A partilha da herança traz à tona o que de pior existe entre elas.

Sandeman vê ruir cada pedaço de sua vida. As decepções com a família aumentam a cada cena. O outrora todo poderoso chefão tem diante de si o esfacelamento de todos os laços que o uniam à família, restando apenas a solidariedade do neto, rejeitado pela mãe ambiciosa e mais preocupada em derrotar a irmã do que manter o grupo familiar coeso.

Boyd conduz o filme com segurança e uma fina ironia, fazendo um bom trabalho com os atores, principalmente Richard Harris. O veterano ator irlandês faz de Sandeman um personagem híbrido, que ao perder a arrogância conquistada nas batalhas de rua, torna-se um ancião atônito e frágil, mas que ainda é capaz de buscar na antiga astúcia a última cartada do rei que perde o trono sem perder a majestade.

Um filme com reflexões ácidas sobre o envelhecimento e as relações delicadas entre pais e filhos, uma prova que os textos do bardo, quando bem conduzidos, continuam pertinentes e atuais.

Cineweb-21/6/2002

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