O filme é, antes de mais nada, uma grande homenagem aos tempos pioneiros do cinema, sua fase pobre, heróica, no início do século, que Clair conheceu de perto. A história, ambientada em 1910, retrata muito bem aqueles dias em que a sétima arte era uma diversão barata e popular, em que as salas de exibição não passavam de pequenos pulgueiros de teto furado, onde um espectador podia ser forçado a recorrer a um guarda-chuva em plena sessão. Longe da especialização da indústria moderna de entretenimento, o carpinteiro de hoje podia ser o contra-regra, o pintor de cenários ou mesmo o ator de amanhã, conforme a necessidade.
Nesse ambiente caótico, divertido e solidário, brilha a estrela de Émile Clément (Chevalier). Diretor de cinema e Don Juan já bem passado dos 40, Émile não se cansa de colecionar casos amorosos e tentar influenciar românticos como seu empregado Jacques (François Périer) a nunca deter-se no amor de uma só mulher. O conselheiro, porém, não consegue seguir sua própria fórmula, apaixonando-se perdidamente pela filha de um amigo e da mulher que amou no passado, a jovem Madeleine (Marcelle Derrien). Voltando de uma temporada no serviço militar, seu amigo Jacques finalmente segue os conselhos de Émile e vai seduzir, precisamente, Madeleine, sem saber que é ela o interesse amoroso do patrão.
A confusão amorosa deste trio é conduzida com malícia e ironia cativantes, que ganham muito com a leveza da direção de atores de Clair, uma de suas marcas registradas. Curiosamente, o chansonnier Chevalier não canta nesta produção. Numa conversa com Georges van Parys, compositor da trilha do filme, o ator e cantor deixava bem claro o quanto se sentia honrado em trabalhar pela primeira vez sob a direção de Clair. Vendo-o entre os figurantes no primeiro dia das filmagens, o compositor lhe disse que ele parecia um garoto bem esperto. Ao que Chevalier respondeu: "Mas eu sou um garoto bem esperto. É a primeira vez que atuo sob a direção de Clair, o que considero uma grande chance para mim. E não farei senão o que ele me indicar, como um bom menino". Considerando-se que na época Chevalier já tinha 59 anos, dez a mais do que o cineasta, e era um artista consagrado na França e na América, não era um pequeno elogio.
