17/08/2026
Comédia

O Silêncio é de Ouro

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Mesmo considerado um patrimônio do cinema francês, René Clair (1898-1981) não escapou de viver um exílio americano. Empurrado pela II Guerra Mundial, que levou uma série de talentos europeus a mudar-se para o lado de cá do Atlântico, Clair trocou a França pelos EUA em 1940, fez filmes com musas como a também expatriada alemã Marlene Dietrich (Paixão Fatal) e Veronica Lake (Casei-me com uma Feiticeira) mas, ao contrário da maioria dos colegas, acabou voltando. Reestreou na terra natal em 47 em grande estilo, com esta comédia musical liderada por outro francês que havia enfeitiçado os americanos, Maurice Chevalier.

O filme é, antes de mais nada, uma grande homenagem aos tempos pioneiros do cinema, sua fase pobre, heróica, no início do século, que Clair conheceu de perto. A história, ambientada em 1910, retrata muito bem aqueles dias em que a sétima arte era uma diversão barata e popular, em que as salas de exibição não passavam de pequenos pulgueiros de teto furado, onde um espectador podia ser forçado a recorrer a um guarda-chuva em plena sessão. Longe da especialização da indústria moderna de entretenimento, o carpinteiro de hoje podia ser o contra-regra, o pintor de cenários ou mesmo o ator de amanhã, conforme a necessidade.

Nesse ambiente caótico, divertido e solidário, brilha a estrela de Émile Clément (Chevalier). Diretor de cinema e Don Juan já bem passado dos 40, Émile não se cansa de colecionar casos amorosos e tentar influenciar românticos como seu empregado Jacques (François Périer) a nunca deter-se no amor de uma só mulher. O conselheiro, porém, não consegue seguir sua própria fórmula, apaixonando-se perdidamente pela filha de um amigo e da mulher que amou no passado, a jovem Madeleine (Marcelle Derrien). Voltando de uma temporada no serviço militar, seu amigo Jacques finalmente segue os conselhos de Émile e vai seduzir, precisamente, Madeleine, sem saber que é ela o interesse amoroso do patrão.

A confusão amorosa deste trio é conduzida com malícia e ironia cativantes, que ganham muito com a leveza da direção de atores de Clair, uma de suas marcas registradas. Curiosamente, o chansonnier Chevalier não canta nesta produção. Numa conversa com Georges van Parys, compositor da trilha do filme, o ator e cantor deixava bem claro o quanto se sentia honrado em trabalhar pela primeira vez sob a direção de Clair. Vendo-o entre os figurantes no primeiro dia das filmagens, o compositor lhe disse que ele parecia um garoto bem esperto. Ao que Chevalier respondeu: "Mas eu sou um garoto bem esperto. É a primeira vez que atuo sob a direção de Clair, o que considero uma grande chance para mim. E não farei senão o que ele me indicar, como um bom menino". Considerando-se que na época Chevalier já tinha 59 anos, dez a mais do que o cineasta, e era um artista consagrado na França e na América, não era um pequeno elogio.

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