Clássico da comédia brasileira dos anos de 1980, A Marvada Carne mantém seu frescor quatro décadas depois. Dirigido pelo estreante em longas na época André Klotzel, e com roteiro assinado por ele e o dramaturgo Carlos Alberto Sofredini, o longa foi premiado em diversos festivais, conquistando 12 Kikitos em Gramado de 1985, entre eles, melhor filme, diretor, atriz (para um jovem Fernanda Torres) e roteiro.
O filme mergulha carinhosamente num Brasil profundo com seus costumes, tradições e prosódia particular – a começar pelo título, que veio da famosa canção de Inezita Barroso Marvada Pinga. O filme faz, pelo viés da comédia de costumes, o que Antonio Candido fez pela antropologia em seu Parceiros do Rio Bonito, descortinar uma cultura muito própria e muito brasileira que sofria – ainda sofre – preconceito do olhar urbano.
Nessa fábula divertida, o protagonista é Nho Quim (Adilson Barros), um simplório homem que sonha com duas coisas: casar e comer carne de boi. Na outra ponta da história está a espevitada Carula (Fernanda), uma jovem doida para casar – tão ansiosa para isso, que vive fazendo ameaças a seu Santo Antonio, na esperança de finalmente encontrar sua cara metade.
Desse encontro, o filme faz seu retrato particular do universo rural combinando realismo com fantasia, na presença de figuras míticas como Curupira (Nelson Triunfo), Mulher Diaba (Regina Casé) e o Preto Velho (Tio Celso), além da presença da icônica dupla sertaneja Tonico e Tinoco. Enfim, é o universo sertanejo raiz, com suas particularidades divertidas que convidam a rir dele e com ele mesmo – muito antes de tudo isso ser contaminado pelo chamado sertanejo universitário, muito mais relacionado a tecnologização da indústria agro, do que à saudade do campo, típico do sertanejo raiz.
