04/06/2026
Documentário

O Jardim das Aflições

Documentário sobre o escritor Olavo de Carvalho.

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Muitas áreas em nosso tempo são construídas em cima do marketing. Em princípio, nada errado com isso – desde que haja substância embaixo do que se divulga.
 
Nada estranhamente, o documentário O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, tem-se constituído em torno de um marketing negativo. Seu slogan - “o documentário que não deveria existir” - que consta do site do filme, aliás, é dúbio, talvez inconveniente como propaganda. Afinal, espectadores que não gostarem do filme tenderão a concordar. Mas a intenção da frase, certamente, era outra – tentar vender que procuraram impedir que o filme fosse feito, o que está para ser provado. Não ter recorrido a leis de incentivo pode ou não ter sido uma opção dos produtores, que não parecem ter encontrado dificuldades em encontrar empresas dispostas a patrocinar o filme, de boa qualidade técnica, e convencer um jornalista experiente, Wagner Carelli, a funcionar como entrevistador do escritor e autointitulado filósofo Olavo de Carvalho, o personagem retratado onipresentemente.
 
Outro episódio negativo aproveitado nesse marketing, que procura transformar o documentário em suposta vítima de esquerdistas, envolveu o festival Cine PE – que deveria ter ocorrido no início de maio, mas acabou adiado depois que sete cineastas retiraram seus filmes para não exibi-los em companhia de O Jardim das Aflições, que fora selecionado para sua competição. Como reação, não faltaram os que acusaram os cineastas de “censura”, quando, na verdade, eles nunca pediram a retirada do filme de Teófilo do festival. Eles é que, sentindo-se incomodados com a tendência política de Olavo, saíram. Direito deles.
 
Tudo isso poderia não ter maior importância – e, no entanto, tem, porque vivemos num país tremendamente polarizado neste momento. A realização de um documentário sobre uma figura notoriamente antiesquerdista, evidentemente, é normal e assim deve ser encarada. Veja o filme quem quiser.
 
Falando agora do filme, que é o que interessa: dificilmente se poderia assistir a uma obra que pudesse ser definida mais claramente como uma egotrip de seu entrevistado, apresentada de maneira absolutamente acrítica. Olavo é visto em sua bela casa na Virginia (EUA), onde está radicado há anos – consta que o diretor do filme também ali vive -, falando sobre alguns de seus temas favoritos, como liberdade individual e as restrições que legisladores e governantes procuram interpor a ela; e também como no mundo “tudo se modernizou para excluir o espiritual”. E mostra sua farta biblioteca, recheada de títulos sobre o marxismo, que ele se dedica a martelar, assim como faz com o PT, como se poderia imaginar.
 
Para quem, como eu, desconhece as obras do escritor, chamou a atenção a platitude das ideias por ele apresentadas com tanta pompa, circunstância e uma boa dose de empáfia. Também me causou espécie a forma jocosa e desrespeitosa como descreveu pessoas que, em última análise, são ou foram seus alunos e contribuem para seu sucesso material pagando por seus cursos: “Incrível como eu atraio loucos”, diverte-se.
 
Um tanto assustador para mim é o apego de um autointitulado filósofo por armas – um detalhe que certamente deve contribuir para que se sinta à vontade entre os armamentistas dos EUA. Neto de caçadores, Olavo revela que ganhou seu primeiro rifle aos 8 anos de idade. E há imagens no filme que mostram sua prática de tiro. Bem vaidosamente.
 
Tudo isso, afinal, é revelador.
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