16/06/2026
Drama

Não devore meu coração

Na região da fronteira entre Brasil e Paraguai, um garoto branco, Joca, se apaixona perdidamente por uma índia paraguaia, a bela e rebelde Basano - que não quer saber dele, entre outras coisas, porque ele é irmão de Fernando, violento integrante de uma gangue de motoqueiros. Na Embaúba Play.

post-ex_7
Numa pegada que incorpora mais toques realistas do que seus filmes anteriores – A Fuga da Mulher-Gorila e A Alegria, com codireção de Marina Meliande -, Felipe Bragança realizou, em Não devore meu coração, uma coprodução entre Brasil, França e Holanda que entrelaça o romance juvenil, o comentário histórico e referências a filmes de gênero, entre o fantástico e a aventura policial de motocicleta.
 
Já não é de hoje que o diretor procura um cinema assim, multifacetado e cheio de arestas, remetendo a incômodos nas próprias situações a que se refere – e que aqui partem da inspiração livre em contos de Joca Reiners Terron. É, até literalmente, um cinema de fronteira, ambientado numa cidadezinha na beira do Paraguai e do Brasil, onde indígenas guaranis enfrentam brasileiros, ainda impregnados dos ressentimentos da malfadada Guerra do Paraguai, em que o Brasil, vitorioso, promoveu um massacre no século 19.
 
No meio disso, nasce um romance entre o menino Joca (Eduardo Macedo) e a índia Basano (Adeli Benitez), que nada tem de adocicado, até porque a garota resiste duramente ao envolvimento com o garoto, irmão de Fernando (Cauã Reymond), violento agroboy local.
 
O título poético refere-se à magia inerente a essa cultura indígena, que persiste no fundo da memória, cada vez mais sitiada por uma realidade social inóspita à superação de conflitos, porque não permite o nascimento de nenhuma forma de integração entre essas populações diferentes, em disputa de espaço, território, riqueza, domínio.
 
Um problema é a articulação de todas essas camadas que a história tem em mira, que se sobrepõem às vezes um tanto mais bruscamente do que o adequado à sua fluência. Há uma preocupação em fazer referências, como a cena da corrida de motos que remete a Juventude Transviada, de Nicholas Ray, e alguns momento Apichatpong Weerasethakul ao longo das sequências que abordam a mitologia indígena, assim como um toque Tsai Ming Liang na colocação do rio como personagem. A pegada pop está em citações a personagens de quadrinhos (como Batman) e na configuração destas corridas de motocicletas.
 
Um pouco mais poderia ter sido investido na forma como os personagens se desenham na história, que ocorre de modo um tanto artificial. Falta uma verdade maior, um aprofundamento a personagens como a mãe de Joca e Fernando (Cláudia Assunção) e mesmo o pai (Leopoldo Pacheco), que afinal parece quase uma caricatura. Mas, acima de tudo, falta organicidade à maneira como se articula essa camada realista à camada fantástica, que aspira a ser simbólica, mas não alça voo suficiente para isso.
post