No instigante A moça do calendário, a atriz e diretora Helena Ignez dá um banho de frescor, imaginação e também humor. Partindo de um roteiro de Rogério Sganzerla – seu marido, morto em 2004 –, a cineasta explora o universo de personagens inconformados e sonhadores, a partir do mecânico Inácio (André Guerreiro Lopes).
Filho de um latifundiário, ele estudou em bons colégios mas, depois de romper com o pai, entrou numa vida dura, trabalhando como gari, depois mecânico, embora mantenha seus sonhos como bailarino.
Ambientada predominantemente na São Paulo do centro velho, a história elege alguns núcleos, como a oficina mecânica Barato da Pesada, povoada por figuras como o “pré-capitalista” Celso Patrão e um filósofo chamado Grande Otelo; um apartamento onde intelectuais formaram uma comunidade, que eles sabem vigiada pela repressão, de olho numa professora (Naruna Costa) que participou de manifestações contra o fechamento de 94 escolas (qualquer semelhança com a realidade de São Paulo não é mesmo mera coincidência); e um bar, onde vários personagens se cruzam.
Djin Sganzerla interpreta um duplo papel, como uma espécie de musa – a garota do calendário que enfeita a parede da oficina onde trabalha Inácio. Mas não uma musa indolente, e sim questionadora, que assombra os sonhos de Inácio cobrando-o sobre sua posição sobre reforma agrária. Seu outro papel é Iara, moça criada num assentamento de sem-terra.
Como no filme de Cristiano Burlan, Antes do fim– em que Helena atua -, a diretora refere-se à “sociedade do cansaço”, obra do autor coreano Byung-Chul Han, inserindo-a no contexto de uma história que reflete sobre a super-exploração do tempo dos homens através do trabalho de uma maneira poética, irreverente, sedutora. Nada de se estranhar, vindo de uma artista e mulher tão inteligente que interpretou a primeira personagem feminista da história do cinema brasileiro, Angela carne e osso, de A mulher de todos, de Sganzerla.
