19/07/2026
Drama

Cinzas de Guerra

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Mais conhecido como ator de filmes como E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? e Minority Report, Tim Blake Nelson adaptou para o cinema o texto desta sua peça intensamente dramática, sobre episódios menos conhecidos do Holocausto - ou seja, a existência de uma elite de prisioneiros judeus que obtinha privilégios no complexo Auschwitz-Birkenau por aceitarem funções diretamente ligadas às câmaras de gás. Essa elite, é bem verdade, não apertava o botão que acionava os fornos crematórios. Era encarregada de remover as roupas e os pertences dos condenados à morte, bem como de recolher suas cinzas depois. Em troca da participação nessas funções macabras, tinham acesso a melhor alimentação e algumas outras vantagens, nada desprezíveis diante da extrema miséria dos colegas dos outros barracões.

O detalhe mais crucial sobre estes prisioneiros é que, mesmo aceitando esse trabalho, nada garantia sua vida. Eles mesmos não costumavam durar mais de quatro meses ali, recebendo em seguida o mesmo destino daqueles cuja destruição assistiram de perto. Uma situação que mostra até que ponto chegou o monstruoso experimento de desumanização posto em execução pelos nazistas, quase tão monstruoso quanto as execuções em massa em si. Não restava a esse grupo nem mesmo o consolo do amor próprio. Perdiam o direito à dignidade, uma condição sempre lembrada pelo oficial Muhsfeldt (Harvey Keitel), supervisor do crematório - que nunca perde a chance de manifestar sua aversão pelos judeus, por serem vítimas tão "fáceis e dóceis".

Uma figura particularmente representativa da ambigüidade deste universo distorcido é a do médico Miklos Niyiszli (Allan Corduner) - inspirado, aliás, num personagem verídico, que escreveu um livro de memórias que inspirou a peça e o filme. Coagido pela necessidade de proteger a sobrevivência da mulher e da filha, internadas em outro campo, o médico aceita colaborar com ninguém menos do que o dr. Mengele. Recebe em troca o desprezo da maioria dos internos no campo que igualmente não vêem com bons olhos suas tentativas de salvar a vida dos que tentam suicidar-se e escapar do inferno. O confronto entre os prisioneiros e o médico irá acirrar-se ainda mais quando um deles, Hoffman (David Arquette), descobre uma sobrevivente (Kamelia Grigorova) entre os mortos da câmara de gás.

O encontro de uma pessoa viva na pilha de cadáveres tem o condão de reacender a humanidade de Hoffman, um daqueles que trabalham diretamente com os condenados. Salvar esta vida cria, porém, um problema imenso para todos os internos, que estão arquitetando uma rebelião - aliás, a única registrada num campo de concentração, que aconteceu em 7 de outubro de 1944. Envolvidos já na perigosa logística clandestina de preparar uma revolta, que visa não a fuga, mas a maior destruição possível das instalações, os prisioneiros passam agora a preocupar-se também em esconder a moça, que não pode aparecer na contagem da população dos barracões.

O melhor deste drama é o tom sóbrio da narrativa, que opta pelo despojamento e minimalismo das interpretações, centrando fogo nos confrontos verbais que aproveitam o bom material dos diálogos teatrais. Por isso, o tom da história tem um rigor quase documental, seco, sem concessões. Outra vantagem é ter contado com um elenco de bom nível, com atores do cinema independente mostrando dotes dramáticos insuspeitados - caso de David Arquette e Steve Buscemi.

Cineweb-4/4/2003

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