Alguma coisa assim, longa da dupla Esmir Filho e Mariana Bastos, é uma espécie de trilogia condensada num filme só. É como se o trio de filmes de Richard Linklater que começou com Antes do amanhecer fosse composto de dois curtas e um média, todos picotados, embaralhados e editados como um longa – curiosamente, uma das melhores coisas desse resultado final é a montagem assinada por Caroline Leone. A outra é a presença de Caroline Abras (premiada no Mix Brasil por esse trabalho), certamente uma grande atriz – aqui, à procura de um filme.
Alguma coisa assim começou com um curta homônimo – escrito e dirigido por Esmir – que ganhou prêmios no Festival do Rio e no de Gramado de 2006. Ali, dois jovens adultos (ambos menores de idade) descobriam a noite de São Paulo, e suas identidades. Caio (André Antunes) começa a se entender como gay (dá o seu primeiro beijo num rapaz), e sua amiga, Mari (Abras), o ajuda, enquanto parece tentar superar uma paixonite que sente por ele.
Alguma coisa assim o longa, que traz roteiro assinado por Esmir e Bastos, resgata esse filme, junto com um outro curta de 2013, que nunca foi exibido, no qual os personagens se reencontram depois de anos, quando ele a convida para ser madrinha de seu casamento com outro rapaz. Essas cenas ocupam pouquíssimo do projeto final que, em sua maioria, acompanha os personagens em 2016, quando ela mora em Berlim e ele vai à cidade para sua pesquisa acadêmica sobre reprodução humana.
As idas e vindas no tempo são sutis e facilmente identificáveis pela fotografia e a caracterização dos personagens, tentando, de alguma forma, mostrar como o presente é resultado da somatória de escolhas do passado e como esse ilumina a pessoa que nos tornamos. Não é nada de novo no cinema e na literatura, e nem é objetivo do filme reinventar a roda cinematográfica. Mas é válido perguntar se realmente estamos interessados em saber o que aconteceu com Caio e Mari, que não são lá personagens muito marcantes da cinematografia nacional. Em outras palavras, é um projeto mais legal do que bom ou diferente.
Berlim e São Paulo surgem como dois cenários imponentes. No início, parece que as cidades serão mais exploradas, mas isso é deixado de lado. O que vemos é como o tempo passou para Caio e Mari, e nada de muito excepcional, que não aconteça todo dia com milhares de pessoas, aconteceu para eles. Há uma dinâmica de aproximação e distanciamento da dupla, e fica claro que Mari é uma personagem muito mais interessante do que o outro – um tanto imaturo mesmo com o passar do tempo. Ajuda o fato de que Abras é uma força da natureza quando está em cena. É dela (e da inconfundível voz de Vera Holtz) a melhor cena do filme: quando a menina liga para a mãe no Brasil. É impossível não se interessar mais pela garota, querer saber como e porque ela foi para Berlim, o que fez lá, e como vive. Mari merece um filme só dela.
