04/06/2026
Drama Biografia

A vida solitária de Antonio Ligabue

Fruto de uma ligação clandestina, Antonio Ligabue foi criado por um casal de camponeses suíços. Desde a infância, encontrou rejeição e violência, desenvolvendo um comportamento antissocial. Deportado para a Itália quando jovem, viveu abandonado até ser protegido pelo artista Renatp Mazzacurati e sua mãe, desenvolvendo seu talento em pintura e escultural

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A interpretação visceral do ator Elio Germano na pele do pintor e escultor Antonio Ligabue (1899-1965) valeu-lhe um merecido Urso de Prata no Festival de Berlim 2020. O versátil ator encabeça o elenco deste drama do diretor Giorgio Diritti, que assume tratar-se de uma biografia livremente construída.
 
Nem poderia ser de outro modo, já que a vida do artista, atribulada como foi, entre a Suíça e a Itália, foi tudo menos uma trajetória ordenada e linear. Nascido de mãe italiana, de uma ligação extraconjugal, o menino Antonio (Leonardo Arrozzo) é criado por um casal de camponeses suíços, a troco de pagamento. Em seu sítio, cresce enjeitado e, não raro, tratado com violência, tanto em casa quanto na escola, desenvolvendo os traços de uma doença mental, que não se sabe até que ponto foi fruto da pobreza e desta criação.
 
Rapazinho (Oliver Ewy), Antonio sofre outra separação abrupta, sendo repentinamente deportado para a Itália - onde não conhece ninguém, não tendo protetores, nem um lugar onde morar. Vivendo muito tempo no mato, como um bicho, ele tira seu sustento de onde pode.
 
Elio Germano interpreta Antonio na fase adulta, emprestando-lhe uma face atormentada e reproduzindo a fala quase ininteligível de alguém que tinha algum problema físico na mandíbula (recriada pela prótese de Lorenzo Tamburini) e teve que aprender de repente o dialeto da Emilia-Romanha para trocar algumas palavras com os raros que ousavam aproximar-se dele - que era dado a rompantes violentos, também um sinal de autodefesa permanente.
 
Não se sabe ao certo quando começou a desenhar, entre uma e outra internação hospitalar. Mas foi isso, finalmente, que o aproximou do pintor e escultor Renato Marino Mazzacurati (Pietro Traldi), que se tornou seu protetor, acolhendo-o em sua casa rural, aos cuidados de sua própria mãe (Orieta Notari).
 
Esse acolhimento humaniza a vida de Antonio, que pinta e esculpe como nunca, mantendo com a natureza uma relação próxima e traduzindo em seus quadros de estilo naif e pinceladas expressionistas uma relação visceral e atormentada com a vida. Descoberto pelo jornalismo e o cinema (é personagem de um documentário), Antonio tem suas obras exibidas em Roma e, pela primeira vez na vida, consegue usufruir de alguma dignidade e conforto, desfrutando de luxos como carros, motorista, motocicletas, roupas boas e comida de restaurante. 
 
Por conta até de sua extrema dificuldade de comunicação e de um temperamento arredio, Antonio continua, no entanto, a habitar um mundo à parte. Incompreendido pelos outros, incapazes de superar sua imagem excêntrica, ele amarga uma profunda ausência de intimidade e afeto, tornando as mulheres um misto de mistério e sonho inatingível, apesar de seus desejos.
 
Elio Germano constroi uma interpretação com o corpo todo, usando nas modulações de um olhar atormentado e na postura arqueada os símbolos de um homem aprisionado por tantas atribulações. Seu senso artístico autodidata conseguiu, em parte, dar-lhe uma forma de expressão, ainda que não uma reconciliação com todas as suas dores e contradições.
 
Em mais de um momento, sobretudo quando se observam seus autorretratos, é possível fazer uma conexão entre Ligabue e Vincent Van Gogh, a quem, igualmente os tumultos interiores roubaram a paz de espírito e, no caso do segundo, abreviaram a vida.

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